Silvia Oliveira

Posts do mês: fevereiro 2010

segunda-feira, 08 de fevereiro de 2010

Comidinhas de rua

É certo. Na França ninguém perde um crepe de esquina. Se o destino for Grécia, todo mundo quer experimentar o gyros – o nosso churrasquinho grego. Ao circular pela Alemanha, qualquer salsichão é bem-vindo. No Brasil, se você sai para comer um bolinho de bacalhau, ali no bar daquele tiozinho perto do seu trabalho, todo mundo vai dizer: óóó, cuidaaado!

Comidinhas de rua sempre tiveram fama – seja pela diversidade, preço baixo ou risco de provocar um desarranjo inconveniente. Verdade seja dita. São irresistíveis. O segredo está em encontrar uma comidinha boa-pinta, com seguro de origem (a indicação de alguém, por exemplo) e garantia de saída. Lugares cheios significam que o quitute é novinho já que o rodízio de gente é grande.

Se seu amigo estrangeiro viesse ao Brasil e quisesse provar algum pitéu ou petisco típicos daqui o que você recomendaria? Pão de queijo? Mandioca frita? Fariam sucesso. Agora, arrisque mais. Em qual outro lugar do mundo você encontra coxinha de frango com catupiry? Imagine oferecer uma iguaria dessas por apenas R$ 2,50? Passando por qualquer feira ao ar livre, o pastel de carne (com caldo de cana!) sempre dá samba e para o gringo não sai mais do que US$ 2,00. 

Sem falar no espetinho, assado na hora. Sim, aquele que muita gente desconfia de que seja feito com carne de gato. Por que quando você está fora do Brasil não faz as mesmas suposições? Gato existe em qualquer lugar do mundo. Pois é, trate de deixar o preconceito trancado dentro da mala. Aposto que quando você pede na Holanda aquele cone de batatas fritas cheio de maionese nem pensa que isso, de fato, pode dar uma tremenda desconjuntura e acabar com sua viagem. 

Imagino, algum receio você teve na Bahia quando pensou duas vezes antes de provar o acarajé – uma das especialidades gastronômicas mais típicas do país. Por módicos R$ 3,00 é possível mergulhar na culinária local e provar uma massa suave feita de feijão-fradinho, frita em azeite de dendê e recheado com uma pasta de vatapá, camarão seco, pimenta (a gosto!) e salada. Daí para a pamonha são dois pulos. Geralmente vendida na beira da estrada, ao lado do curau – outro acepipe com a cara do Brasil – o manjar de milho cuidadosamente embalado numa palha deveria virar patrimônio imaterial.

Provemos, então, o afamado sanduíche de pernil, oferecido nas melhores casas do ramo. Pão crocante, carne desfiada e levemente tostada. Alguns acompanham pedacinhos de abacaxi. Mais tupiniquim do que isso só o queijo coalho – feito na hora, em baldes improvisados pelos vendedores ambulantes espalhados pelas principais praias do Brasil. Custa entre R$ 1,50 e R$ 3,00 – quando muito caro. Aliás, não só na praia. O melhor queijo coalho que comi foi na Rua 25 de Março, em São Paulo. Uma temeridade, eu sei. Mas, como podem ver, sobrevivi para contar história.

Foto: Queijo coalho na Rua 25 de Março, em São Paulo. (Raul Mattar)

Texto publicado originalmente na minha coluna “Viagens econômicas e inteligentes”, que sai semanalmente no portal Descubra Brasil.

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sábado, 06 de fevereiro de 2010

Hospedagem em San Pedro de Atacama

Acredito que há poucos lugares no mundo com uma oferta tão democrática de hospedagem numa área tão pequena e inóspita como San Pedro de Atacama. Ao longo da calle Caracoles – a principal da cidade – há algumas dezenas de albergues e pousadinhas que cobram a partir de US$ 10,00 por um quarto coletivo. Não muito longe dali aparecem os hotéis que variam de meia-boca à categoria luxo.

Optamos pelo Parina Atacama, o primeiro apart-hotel de San Pedro, inaugurado há pouco mais de um ano. Está a 10 minutos caminhado do centrinho. As acomodações são duplex. Na parte de baixo, cozinha equipada, sala e banheiro com toalhas felpudas. Em cima, uma espaçosa e confortável cama. Tem televisão, wi-fi grátis e uma bicama, portanto acomoda até quatro pessoas, que são cobradas à parte. Diárias para casal a partir de US$ 120,00.  O café da manhã – servido no quarto – está incluído. Tudo novinho e atendimento absolutamente personalizado. Quando chegamos fomos recepcionados com bolo típico e suco. Fofo!

Para o meu padrão mão-de-vaca-muquirana pagar mais do que US$ 100,00 na hospedagem é quase um acinte a minha inteligência. Mas como se tratava de um deserto no fim do mundo – na minha concepção urbanóide – eu é que não ia ficar num pardieiro qualquer. Entenda: uma espelunca em Paris pode ser chamada de “casarão do século 16”. Já um muquifo no meio do deserto só pode ser chamado de… muquifo! Ficar hospedada num local padrão quatro estrelas contou muitos pontos para o êxito da minha viagem.

Outras opções de hospedagem em San Pedro de Atacama

Hospedagem Muquirana
Hostelling San Pedro
Albergue filiado à rede Hostelling International. Oferece camas em quartos coletivos a partir de US$ 10,00. Quartos duplos com banheiro compartilhado ficam em torno de US$ 36,00. Preços para associados à rede internacional de albergues. Café da manhã e lencóis incluídos. Só tenho coragem de indicar este porque foi o único albergue que visitei. A recepção é assustadora de tão feia. Mas os quartos são ajeitadinhos. Para conhecer outros hostales em San Pedro de Atacama, clique aqui.

Hospedagem Classe Média
Além do apart-hotel Parina Atacama (onde nos hospedamos) achei uma graça o Hotel Kimal. Bem próximo da rua principal, oferece um certo luxo sem cobrar valores de resort. O hotel, com café da manhã estilo buffet , recria a arquitetura atacamenha. Tem restaurante e piscina. Quarto duplo a partir de US$ 185,00.

Momento extravagância
Hotel Explora
Um luxuosíssimo complexo para deixar qualquer fresco/a deslumbrado/a. (Alguém chamou?) Três noites em quarto duplo saem por US$ 1920,00. Obviamente, tudo incluído – desde café da manhã, wi-fi e os principais passeios. No Brasil, eles disponibilizam um telefone para tirar dúvidas e maiores informações: (11) 8266 8110

Fotos: Matraca’s Image Bank

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Hospedagem em San Pedro de Atacama
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quarta-feira, 03 de fevereiro de 2010

Atacama: 5º dia | Gêiseres El Tatio

O que uma pessoa do meu naipe – que só conhece o bom humor acima dos 22 graus – vai fazer em um passeio que começa de madrugada, chega a muitos graus abaixo de zero e, ainda por cima, a 4.300 metros de altitude? Fiquei tensa desde a noite anterior. Escutei mil recomendações. Faça um jantar leve, não beba, durma cedo. O tour ao Gêiseres El Tatio é considerado o mais cruel pela maioria dos visitantes. A estrada que leva até o campo geotérmico é perigosa, cheia de curvas e sem sinalização. Além de sentir o mal das alturas (também chamado de soroche), alguns turistas ficam enjoados com a descompostura da van, que chacoalha sem parar.

Pois então… não senti nada (além de frio, claro!) O guia passou para nos pegar às 4h da madrugada. Entrei no veículo e dormi até o destino final. Os gêiseres do Atacama estão localizados na cordilheira andina, a 100 quilômetros de San Pedro – cidade base para explorar toda a região. São quase duas horas de viagem até lá. O fenômeno começa bem cedinho, mais ou menos às 6h da manhã. Enormes fumarolas escapam através de buracos e fendas no solo. Lençóis subterrâneos de água entram em contato com rochas quentes, provocando pequenas explosões. Alguns jatos chegam a 10 metros de altura, a quase 80ºC.

Na entrada do campo geotérmico – onde você compra o ingresso – há um termômetro. No dia em que fomos marcava 8 graus abaixo de zero. Uma espécie de “veranico”, digamos assim. No inverno pode chegar a 30 graus negativos. Obviamente que ao ver a temperatura já fui afetada psicologicamente e quase me atrevo a não sair do carro. Mas ao me aproximar da área, uma extensão de três quilômetros, com aquela visão que a gente tem só quando vê filmes do tipo Avatar entendi porque é considerado “o” principal passeio pela maioria.

É uma experiência sensorial. Você desce da van, encaranga devido ao frio, respira com dificuldade por causa da altura. Cinco passos são suficientes para observar a fotografia que o lugar proporciona. Começa tudo cinza.  As primeiras fotos do post não estão em preto e branco. Essa é a luz do local pouco antes do amanhecer. A composição é gerenciada pelo sol. Quando ele começa a aparecer, os gêiseres entram em ação com mais força. Há várias placas indicativas alertando para não se aproximar muito do fenômeno. Em menos de 20 minutos, o quadro ganha cores. O céu azulíssimo em contraste com as montanhas douradas. Ao redor desmedidas fumarolas brancas. (Aliás, tudo no Deserto do Atacama é enorme, colossal, gigantesco, imenso … desculpe-me se sou repetitiva).

Quarenta minutos após a nossa chegada os guias começam a preparar o café da manhã, servido ali mesmo. Em seguida, todos partem para uma piscina termal que fica no próprio campo geotérmico. Não há nenhuma infra-estrutura. Os interessados em dar um mergulhinho num bacião a 40ºC (lembrando que estamos abaixo de zero!) devem ir com o traje de banho por baixo da roupa. Eu? Se ainda houvesse exame médico no local para atestar que ninguém tem micose, frieira, pereba ou chulé… nem morrrrrta, santa!

Nosso último passeio, supostamente, acabava ali - no Piscinão de Ramos do Atacama. Mas como tudo no deserto reserva uma surpresinha no final, ao regressar dos gêiseres El Tatio conhecemos Machuca – um pueblo atacameño praticamente desabitado. Na única rua do vilarejo, o clássico da região: casas de barro, teto de palha e uma igrejinha ao fundo.

A meia dúzia de moradores dali espera ansiosa pelos visitantes diários que vão abocanhar os (carésimos) espetinhos de carne de lhama (2.500 pesos cada, cerca de US$ 5,00) e as empanadas de queijo de cabra (700 pesos ou US$ 1.50). Comi dois churrasquinhos e uma empanada – que era imensa – sozinha. O Raul não arriscou nem um, nem o outro. (Depois eu é que sou a fresca, né!)

Fotos: Raul Mattar (menos as do espetinho de lhama e a da empanada de queijo de cabra que pertencem ao Matraca’s Image Bank)

SERVIÇO:

Contratamos todos os passeios na agência Lickan Antay.
A desgramada não tem site. Fica na c/ Caracoles, 419 – Tel.: (+56) 55 591799 e 55 591800.
Valor do tour: 15 mil pesos (US$ 30,00)- por pessoa. Inclui café da manhã.
Valor da entrada: 3.500 pesos (US$ 7,00).

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MATRAQUEANDO - Viagens e Comidinhas | Por Sílvia Oliveira | Jornalista | Curitiba, BR

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