domingo, 11 de fevereiro de 2007
Há algum tempo comentei com meu amigo Gerson (editor-chefe do Matraqueando) que queria ir à Índia. Ele, assustado, disse que alguém havia falado que o país era muito sujo. Huuumm, matutei: sim, claro, se fosse limpo, não seria a Índia! É certo. Nem toda viagem é para todo mundo. Eu, por exemplo, gostaria muito de conhecer o Afeganistão. Mas não tenho o menor espírito de correspondente de guerra. (Só passei a régua em Israel quando tudo estava bem calminho por lá.) O fato é que não se pode recomendar lugares muito excêntricos ou extravagantes para qualquer tipo de turista. Por isso, antes de realizar um daqueles devaneios das aulas de história – quero conhecer as Pirâmides de Gizé – é importante detectar se você realmente pode (ou deve) visitar o Egito:
Vá sem dúvidas se você…
1. Reconhece o valor das maravilhas do mundo antigo.
2. Simpatiza com múmias.
3. Aprecia chá de menta.
4. Gosta de pão sírio, hummus e coalhada.
5. Sabe pechinchar.
6. Ama um calorzinho.
7. Não resiste aos mercados gigantes onde tem-de-tudo-um-pouco. Perca-se no Khan El-Khalili, o mais famoso de todos.
8. Confia que o Nilo é mesmo uma dádiva.
9. Não tem problemas em dar gorjetas o tempo t-o-d-o.
10. Acha espetaculares os templos faraônicos. Lá tem Luxor, Karnak, Kom Ombo e Abu Simbel.
11. Jura que vai se concentrar apenas na importância arqueológica das peças do Museu do Cairo e não em COMO estão expostas.
12. Já leu A Morte no Nilo, de Agatha Christie. E gostou.
13. Acredita nos 10 mandamentos. O Monte Sinai está logo ali.
14. Respeita os todo-poderosos Amon, Rá, Anúbis, Osíris, Hórus e Ísis, deuses egípcios.
15. Gostaria de ter sido Cleópatra. (E isso serve para os homens também).
Evite se você…
1. Não gosta de história
2. Tem claustrofobia. O interior das pirâmides são corredores estreitos, com câmaras escuras e empoeiradas.
3. Sofre em trânsitos caóticos. O Cairo não seria, assim, o melhor lugar do mundo para um city-tour de ônibus. Nem de táxi.
4. Reclama de cigarro. Todo mundo fuma. Existem até alguns lugares exclusivos para fumar narguilé, uma espécie de cachimbo d´água.
5. Acha um horror quem arrota após as refeições. Aqui, é elogio para o anfitrião.
6. Prefere axé à dança do ventre.
7. É um museístico fundamentalista. Você teria um ataque fulminante de pereba e catapora ao detectar o desleixo do Museu do Cairo.
8. Acredita que todo muçulmano é terrorista.
9. Já leu A Morte no Nilo, de Agatha Christie. E não gostou.
10. Faz a maior confusão geográfica e pensa que o Mar Vermelho é vermelho mesmo.
11. É encafifado com a maldição do faraó e tem medo da Esfinge.
12. Fica cabreiro com assédio de vendedores ambulantes.
13. Só vai para lugares que funcionem bem, com transporte decente e comidas óbvias. Entenda: destinos exóticos (e pobres!) quase nunca desempenham corretamente. Nesse caso, vá para São Paulo. A cidade está localizada num país beeem exótico, onde as pessoas comem buchada de bode, dançam um tipo de música chamada egüinha pocotó e acendem uma vela para Deus e outra para Padim Ciço e Frei Damião. Além do que, é o único lugar do mundo com um museu que guarda um enorme tesouro: a língua portuguesa. Ah, e dentro do que cabe, funciona muito melhor do que o Egito. Maktub.
Fotos: Matraca´s Image Bank
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EGITO combina com:
Marrocos
sábado, 10 de fevereiro de 2007
Não tenho mais nenhum grande sonho de viagem. O maior deles, já realizei. Subi o Monte Sinai. Quero, sim, ir a Machu Picchu. Também está na minha lista Jaipur, na Índia. Recentemente inclui no meu rol (por obra e graça do Guilherme) a paradisíaca São Mateus, no Espírito Santo. Mas não são sonhos. São desejos de conhecer estes lugares. Depois que passei pelo Egito tudo foi consumado. A subida ao monte onde Moisés teria recebido os 10 Mandamentos foi o final consagrado da minha expedição ao país dos faraós.

Não há evidências arqueológicas da passagem do profeta por aqui. No entanto, a região é sagrada para três religiões: cristianismo, judaísmo e islamismo. Chegar ao monte é simples, mas não tão fácil. A cidade base é Dahab, um balneário famoso no sul da Península do Sinai. Praia! A subida começa à meia noite. Dura quase quatro horas. São 5 mil degraus escavados na rocha. (Com certeza, a primeira e última escalada da minha vida. Como sabem, não sou adepta a montanhismo.) Mas nem por isso reclamei. Eu planejei, eu quis, eu realizei. Ninguém sobe de dia por causa do calor. O Monte Sinai está no meio do deserto. Atraquei-me ao topo por volta das 4h da manhã.
Estando lá em cima é só esperar o sol nascer. Maktub.
Fotos: Matraca´s Image Bank
sexta-feira, 09 de fevereiro de 2007
Para mim, não existe a maldição da múmia, mas – sim – a maldição do chá. Onde quer que você esteja, aonde quer que você vá, no Egito vai ter sempre alguém (geralmente uma pessoa interessada em vender algo) oferecendo-lhe o afamado chá de menta. Nem pense em recusar, é ofensa imperdoável. E aí, lá pelo quinto dia de viagem, já no 47º chazinho – e nem pelo poder de Alá você conseguir engolir a dita cuja da bebida, dê para o companheiro ou companheira de viagem beber também o seu (eu fiz isso). Mas devolva o copo vazio! Agora, se estiver viajando sozinho pense pelo lado positivo: chá acalma, emagrece e pode ser até afrodisíaco.
Foto: Kit Chá de Menta: bulezinho de prata e minicopos. Este modelo comprei no Marrocos (outro país árabe gamado nesse tipo de degustação), mas o do Egito é igualzinho. (Matraca´s Image Bank)
quinta-feira, 08 de fevereiro de 2007
Um pouco da história da humanidade está literalmente amontoada no Museu do Cairo. É possível ver uma cabeça de Ramsés II esculpida em basalto jogada em algum canto do museu ou ainda os pertences de Tutankamón – incluindo a máscara do faraó-menino (foto) - catalogados em pequenos pedacinhos de papel escritos à mão. Os turistas encontram vitrines cheias de poeira e, às vezes, até sem identificação. Ainda assim foi o museu mais espetacular que conheci. (Não, não foi o Louvre). É certo que um visitante museístico fundamentalista não teria gostado muito. Mas você está na alma do Egito e é essa desorganização que dá ao país boa parte do seu charme. Em tempo: lugares exóticos costumam não funcionar muito bem. Se funcionassem, não seriam exóticos. Seriam Nova York, Londres ou Curitiba.
Foto: Matraca´s Image Bank
quarta-feira, 07 de fevereiro de 2007
Não conheci o Colosso de Rodes nem os Jardins Suspensos da Babilônia. Pelo que imagino, tampouco vou me deslocar à África para ver os gorilas ameaçados de desaparecer. Mas as Pirâmides – a única da sete maravilhas do mundo antigo que ainda resiste – já garanti. Se você tiver a sorte de se hospedar num dos disputados hotéis-muquifo de Gizé, a 18 km do Cairo, pode ter a grata satisfação de ver da janela do seu quarto o mais famoso monumento do Egito. Quem pensou que para chegar até lá era preciso andar horas no deserto, se arrastar pelas areias do Saara, ver miragens… se enganou direitinho.

Dois quilômetros da cidade e lá estão elas. Construídas há quase 5 mil anos. Os guias – que aparecem sempre de repente, não se sabe de onde, nem porquê – vão lhe oferecer um camelo. O simpático e desengonçado bicho nos leva até os monumentos por um caminho bem mais longo. E então você passa pelo menos uns 40 minutos debaixo de um sol escaldante (se não, num ia ter graça), comendo areia (é o Saara!) em cima daquela geringonça, que sobe e desce sem parar. Confortável não é, mas nada supera a emoção de andar a camelo no maior e mais famoso deserto do mundo… ainda mais rumo às pirâmides! Os Beduínos são fichinha perto da disposição que a gente arruma para viver, mesmo que por poucas horas, como um deles.

Fotos: Matraca´s Image Bank