Silvia Oliveira

Na categoria Atacama

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Atacama: 3º dia | Manhã: Tour Arqueológico

Se eu tivesse que dar uma sugestão diria para você fazer primeiro, assim que chegasse a San Pedro, o tour arqueológico. E só depois se embrenhasse pelos passeios-paisagem. História e arqueologia me fascinam e a Aldea Tulor e Pukará de Quitor – sítios arqueológicos – faziam parte das prioridades absolutas para mim. O detalhe é que não se deve esperar por cenários extraordinários – como os que vimos nos dias anteriores. Se você fizer primeiro este recorrido seguramente vai se impressionar mais do que se vier depois de um Salar de Tara, por exemplo.

Contratamos um motorista particular (indicado pela agência) para esse passeio. Queríamos fazer algo em, no máximo três horas, no período da manhã, porque à tarde seguiríamos para a Laguna Cejar. Antes de encontrar o tal motorista, começamos – por conta – pela igreja de San Pedro de Atacama, construída no século 18 em adobe com teto de madeira. Declarada patrimônio nacional, a igrejinha fica na praça da cidade, rodeada de bares, restaurantes e lojinhas. A poucos metros dali está o Museu Gustavo Le Paige com uma coleção interessante de cerâmica, tecidos, arpões e vestimentas da cultura regional. Estão expostos vestígios desde a Idade da Pedra Lascada (e não é força de expressão) até marcas da civilização Inca. É bem organizado, mas pequenininho. Não espere um Louvre Atacamenho.

Já no Toyota do motorista Tatá, um velhinho simpático e falante, fomos em seguida a Pukará de Quitor, um sítio arqueológico a apenas três quilômetros do centro de San Pedro. Quitor foi uma antiga fortaleza pré-Inca, construída no século 12 – hoje em ruínas. Foi erguida sobre um “morro” que faz parte da Cordilheira de Sal. A princípio, parece um amontoado de pedras. Mas ao subir (sedentários, preparem-se para botar os bofes para fora) o visitante vai desvendando a realidade dos antigos habitantes do lugar.

É uma edificação espantosa. São pedras grandes e pequenas entrelaçadas com uma massa de barro. Tinha caráter estratégico e defensivo. No século 16 foi invadida e parcialmente destruída pelos espanhóis. Aqui encontrei  um casal de ingleses que passeavam com um bebê de dois (DOIS!) meses e um menino de três anos. Na foto aí de cima você vê o pai carregando o menino nas costas. Já a mãe – carregando o bebê num canguru – foi aconselhada a esperar lá embaixo, na sombra.

Dali fomos para a Aldea Tulor, a 10 quilômetros de San Pedro de Atacama. Está no mesmo caminho que leva ao Valle de la Luna. É o vestígio habitacional mais antigo do Salar, uma aldeia tipicamente pré-colombiana. Acredita-se que a Aldea Tulor tenha quase 3 mil anos. O curioso são as construções de argila, em forma circular, antigas casas geminadas. Em algum momento esta aldeia foi sepultada pela areia. Hoje o que se vê ali são duas casinhas reproduzidas (não originais) e uma passarela com um pequeno mirante que permitem observar do alto as formações do lugar. Daqui se tem uma ótima visão do vulcão Licancabur. A descoberta arqueológica permitiu avanços nas pesquisas históricas da região.

Então, pois é… para a história e a arqueologia são informações e descobertas sensacionais. Para uma experiência turístico-sensorial deixa a desejar. Mas a culpa é minha, não do lugar. Eu que já conheci as pirâmides do Egito, as ruínas de Teothiucán no México, e a reconstituição de uma povoação Guanche em Tenerife, nas Ilhas Canárias fiquei assim… “já acabou?” Mas em nenhum momento desaconselharia a visita. Acho uma obrigação (se é que existem obrigações numa viagem) passar por aqui. Só contenha suas expectativas. Coisa que eu não fiz.

SERVIÇO:

Valor do Tour Arqueológico: 15 mil pesos (US$ 30,00) – para os dois. Foi o único tour que eu paguei diretamente para o motorista, indicado pela agência Linckan Antay. Geralmente as agências cobram este valor por pessoa e o tour dura 5 horas. O nosso foi feito em três e já tá bom demais. O celular do motorista Tata é (+56) 55 9302-1521.
Valor da entrada em Pukará de Quitor: 2 mil pesos (US$ 5,00)
Valor da entrada na Aldea Tulor: 2 mil pesos (US$ 5,00)

Ainda no 3º dia no Atacama: Laguna Cejar e Tebinquiche. Nosso próximo post!

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quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Atacama: 2º dia | Salar de Tara

A recomendação é: faça primeiro os passeios de altitudes mais baixas para seu corpo se acostumar. Mas o tour que percorre o Salar de Tara – a quase 4.400 metros – calhou de ser organizado no nosso segundo dia no Atacama. Poucas agências levam até lá. E é praticamente impossível fazer a rota sozinho. Nem pensamos duas vezes. Depois do arrebatamento no Valle de la Luna fizemos um jantar leve no apart-hotel e fomos dormir cedo para enfrentar no dia seguinte um possível soroche, também chamado de mal das alturas.

O sacolejo começa às 8h. É um passeio de dia inteiro. A viagem passa por uma das paisagens mais impressionantes do Altiplano. É o tour mais completo na minha opinião: tem salar, vulcão, flamingos, formações rochosas inexplicáveis. Mas é pouco conhecido ainda. Talvez porque seja muito longe, ou muito caro. Não importa: vá! O Salar de Tara pertence a Reserva Nacional dos Flamingos e está a 140 quilômetros de San Pedro, 50 deles derrapando num areião sem fim. Juan Carlos – nosso motorista e guia – é especializado na rota. Dado momento só se vê deserto, sem nenhuma referência, não há sinalização, nem estradinhas demarcadas.

Pode ser considerada uma região excêntrica, daquelas donas de si, que zombam do visitante. A majestade diante dos súditos, nós – a plebe pasmada e constrangida com tamanha força natural. São várias paradas para (tentar!) respirar, fotografar, admirar. Na nossa van, dois espanhóis e uma chilena. Um grupo entrosado e extrovertido. Ninguém foi pego pelo soroche. (E eu nem cheguei a tomar o famoso chá de coca).

Toda a reserva está cheia de estruturas vulcânicas, declives e formas modeladas pelo vento. Os Monges de Pacana são verdadeiros moais atacamenhos. Enormes rochas verticais de 30 metros de altura, solitárias no meio do nada. Durante o percurso aparecem as primeiras vicunhas, rápidas e desconfiadas. Essa espécie de camelídio andino está em extinção e sua caça, totalmente proibida. Difícil fotografar as danadinhas. Quando percebem qualquer aproximação, disparam pelo vale. Da nossa parte, não há afobação. O deserto – principalmente a uma altitude dessas – pede calma, passos lentos. Para mim, que ando rápido, falo rápido e gesticulo muito, foi exercício de paciência e introversão.

Quando a gente acha que já está bom, que já valeu à pena… encontra um paredão gigante – as Catedrais de Tara – colossais esculturas de pedra que se assemelham a um grande castelo. Uma experiência exótica, absoluta.

Próximo dali o salar, propriamente dito. Cheio de flamingos. Fizemos uma parada para o almoço, preparado pelo guia: arroz, frango, salada de tomate e abacate apimentado. Acompanhava vinho, suco e refrigerante. Era quase uma da tarde e eu estava morrrrta de fome. Degustei como se fosse meu melhor manjar chileno, no restaurante mais inusitado do planeta.

Fotos: Raul Mattar (menos a que ele aparece fotografando e a do prato de comida, que pertencem ao Matraca’s Image Bank. Nossa foto comendo foi tirada pelo Juan Carlos, o guia-motorista)

SERVIÇO:
Contratamos todos os passeios na agência Lickan Antay.
A desgramada não tem site. Fica na c/ Caracoles, 419 – Tel.: (+56) 55 591799 e 591800.
Valor do tour avulso: 35 mil pesos (US$ 70,00) – por pessoa. Se comprar com outros passeios há desconto.

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quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Atacama: 1º dia | Valle de la Luna e Valle de la Muerte

Mal sabia eu o que me esperava. Ao passar pela Cordilheira de Sal surgem impressionantes formas e brilhos minerais. De repente, uma enooorme duna, 20 minutos de subida, a 2400 metros de altitude. Xinguei o guia, a mãe do guia, o pai do guia e todo mundo que me fez comer areia e poeira. Mas na hora tive meu momento-roberto-shinyashiki, “você pode, você consegue, acredite em você…”. Quando me dei conta já estava lá em cima com aquela visão inconsequente provocada pelo Valle de la Muerte.

Foram cinco dias inteiros no Deserto do Atacama. O passeio de estreia é quase o mesmo para todo mundo: Valle da la Muerte e Valle de la Luna. Os dois vales estão bem próximos de San Pedro. O da Morte fica a apenas três quilômetros e o da Lua, a 17. Muita gente chega lá a pé ou de bicicleta. Fui numa vanzinha com ar condicionado, craro. Valle de la Muerte: o porquê deste nome ninguém sabe ao certo. Existem várias teorias. Uns dizem que por ser tão seco, nada nasce ali. Outros supõem que o arqueólogo Gustavo Le Paige – grande desbravador do Atacama há mais de 50 anos – teria encontrado restos mortais na região, levando Le Paige a acreditar que os antigos atacamenhos utilizavam o vale para morrer.

É um enorme silêncio, uma vastidão, rochas avermelhadas, dunas douradas. Muito, muito calor. Justamente por isso o tour começa mais pro fim da tarde, às 16h para dar tempo de pegar o por-do-sol ali do lado, no Valle de la Luna – outro acinte geológico. O vento e a ação de outros agentes atmosféricos esculpiram uma visão lunar, com esculturas no meio nada. Um ambiente perfeito para trekking, montaria (há passeios a cavalo), off-road e mountain bike, verbetes absolutamente inexistentes no meu dicionário MatracaHouaiss.

Licença pro meu lado cafona: para mim, o infinito deserto, o ilimitado horizonte, o indeterminado sentido, o sem fim do movimento natural do vento, o deleite de estar ali foram suficientes para me deixar sentada, abraçada no meu próprio sedentarismo, mergulhada na minha capacidade de superação – apenas observando o que todo mundo tentava (mas não conseguia) pegar com as mãos. Pronto, pode continuar.

Tive a sorte (alguns chamariam de azar) de pegar um dia parcialmente nublado, o que provocou um por-do-sol com nuances laranjas, vermelhas, rosadas e violetas no meu primeiro fim de tarde aqui. Foi uma visão deslumbrante. Não é exagero de viajante afetado. Role a página e depois a gente volta a conversar.

SERVIÇO:

Contratamos todos os passeios na agência Lickan Antay.
A desgramada não tem site. Fica na c/ Caracoles, 419 – Tel.: (+56) 55 591799 e 591800.
Valor do tour avulso: 5 mil pesos (US$ 10,00). Se comprar com outros passeios há desconto.
Valor da entrada: 2 mil pesos (US$ 4,00)

Fotos: Raul Mattar

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terça-feira, 12 de janeiro de 2010

San Pedro de Atacama

Acredito que eu tenha sido o único ser vivo a arrastar uma mala de rodinhas pelas ruas empoeiradas de San Pedro, no coração do Deserto do Atacama. Quando olhares encabulados começaram a me seguir achei que estava abafando no meu modelito safari, chapelão à la Indiana Jones, óclão by Jaqueline Kennedy e com meu tênis all star cor verde-matinho-seco. Pra combinar. Rá!

Estava entrando num deserto de paisagens lunares, rodeado de vulcões, com inversões térmicas bruscas – chegando a 30 graus de dia e a menos dois na madrugada. Parece que não, mas eu sabia o que ia encontrar. Só não faço a linha grunge-mochileiro-desgrenhado-sei-lá-entende. Poderia ter ido para os Lagos Andinos, ou circulado pela Patagônia. Quem sabe, Ilha de Páscoa. Mas não.

Enfrentar a realidade do deserto cercada por aquelas paisagens absurdamente atípicas era um desejo mais do que antigo. Sim, o nariz e a boca ressecam. A pele fica áspera. Os olhos ardem. E o cabelo parece que nunca mais vai voltar ao normal, nem com creolina. Fui preparada. Muito soro fisiológico, pomada para os lábios, colírio que imita a lágrima. Fiquei craquenta, não nego. Mas sem perder a classe jamais: esmalte para retocar, sempre.

Do aeroporto de Calama até aqui são 105 quilômetros, pouco mais de uma hora. Ao chegar a San Pedro de Atacama tive uma sensação que só senti em outro lugar no mundo, olha que paradoxo: Veneza. Enquanto ela está plantada em cima de um oceano, ele fincou raiz no deserto mais árido do mundo. Em comum, o incomum. Ambas cidades parecem ter saído de alguma estória de Julio Verne.

Pouco mais de cinco mil pessoas vivem em San Pedro. Um vilarejo feito de casas com paredes de barro e telhados de palha. Apenas para proteger do sol. Chove quase nunca. Descrever aquele grupo de quarteirões como uma vila de faroeste seria muito simplista. Há uma enorme infra-estrutura (bares, restaurantes, cafés, lojinhas, mercados) para receber os turistas que vão desde mochileiros, passando por senhores dinamarqueses cheios da grana até chegar às frescas muquiranas como eu.

Aliás, o que não faltam são albergues, um a cada dois metros. Bons hotéis se espalham ao redor da calle Caracoles, a principal rua da cidade. E resorts luxuosos – com sistema all inclusive – já são vários. Fiquei no único apart-hotel de San Pedro, o Parina Atacama (US$ 120,00 por casal, com café da manhã servido no quarto!), inaugurado há pouco mais de um ano. Já sabe, quanto mais inóspito, inacessível ou exótico o lugar, aposte numa boa hospedagem. Como eu não queria, assim, nenhuma vivência estilo patropi investi neste quesito. Saiu caro para os meus padrões. Mas teria sido um desastre se eu tivesse ficando em algum hostel por US$ 10,00 que regula a água quente e desliga a calefação à noite.

Independente de onde você for ficar, todo mundo está ali com o mesmo propósito: levar para casa uma experiência única, de um lugar exclusivo, que jorra água fervente do chão, que tem lagoas azuis, dunas douradas, cercado pelo segundo maior salar da Terra, cheio de flamingos e abraçado a um enorme vulcão.

Fotos: Raul Mattar

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segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Como chegar a San Pedro de Atacama, no Chile

Avião: é a alternativa mais rápida. De Santiago a Calama – cidade porta de entrada para o deserto – são cerca de 2h. Lan Chile e Sky Airlines fazem o trajeto. Veja nosso tutorial para comprar passagens baratas pela Sky Airlines, aqui. Ao chegar ao aeroporto de Calama você pode contratar o transfer Licancabur – ida: 9 mil pesos ou US$ 18,00;  ida e volta: 16 mil pesos ou US$ 32,00, por pessoa. Solicite sua reserva on-line aqui ou pelo e-mail  transfer@sanpedroatacama.com . De Calama a San Pedro é uma hora de viagem.

Carro: de Santiago são mais ou menos 24 horas de viagem.  Se você tem tempo e não precisa tomar Dramin acho que vai gostar bastante. As estradas são boas e você poderá vislumbrar paisagens singulares que só os passeios de carro permitem.

Ônibus: a empresa Tur Bus chega até San Pedro (saindo da capital).  A passagem de ida fica em torno de 25 mil pesos (cerca de US$ 50,00). Já a Pulmann Bus chega até Calama. Passagem de ida em torno de  24 mil pesos ou US$ 48,00.

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Atacama: 5º dia | Gêiseres El Tatio
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Foto: Raul Mattar

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Páginas:12
MATRAQUEANDO - Viagens e Comidinhas | Por Sílvia Oliveira | Jornalista | Curitiba, BR

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