terça-feira, 22 de setembro de 2009

Holanda a 50 euros por dia – Parte 1


Nos canais de Amsterdam um passeio de barco sai a partir de 12 euros. (Foto: Lars Brinkman)
 
Se eu perguntasse a você qual o principal cartão postal da França ou da Grécia com certeza algo muito típico e célebre viria a sua cabeça. Torre Eiffel na primeira. Quiçá a Acrópole na segunda. Já a Holanda não pode ser descortinada através de imagens consagradas. Num exercício de construção do imaginário poderíamos destacar alguns ícones como tulipas, tamancos, moinhos e bicicletas. O detalhe é que, aqui, os atributos quase sempre superam as características. O maior valor do país nem sempre sai na fotografia. Desprovida de preconceitos e altamente tolerante com as diferenças, na Holanda os direitos humanos não são motivo de discussão, mas – sim – de orgulho.  

Amsterdam, porta de entrada para a maioria dos turistas que vem ao país, foi a cidade escolhida para o famoso protesto de John Lennon e Yoko Ono, em 1962, quando passaram uma semana na cama. No quarto 902 do Hotel Hilton, para ser mais exata. No entanto, a cidade do tudo pode já foi mais liberal. Drogas e prostituição são permitidas, com restrições é bom advertir. Liberdade de expressão é algo incontestável. Mas seu direito sempre vai terminar quando o do outro começar.   

DE CASAS CUBISTAS A VACAS MALHADAS   

O holandês já nasce poliglota. O país de onde brotaram gênios como Van Gogh e Rembrandt tem um idioma impenetrável. Até um descompromissado “por favor” (algo como alstublieft) dá nó na língua. Não há com que se preocupar: a maioria fala inglês ou alemão. Eles reconhecem que a língua nativa é complexa e farão todo o esforço do mundo para ajudar você.   


Tulipa, a flor típica do país. (Foto: Cyan Li)   

Tecnicamente a Holanda tem duas capitais, o que pouca gente sabe. Amsterdam é a nominal, a que aparece nos guias de turismo e revistas de viagem como a cidade mais liberal do mundo. Mas Haia (Den Haag) é a sede do governo, portanto a capital político-administrativa do país. Mas isso você vai encontrar, provavelmente, em apostila de preparatório para vestibular só para confundir a gente.   

Metade do território holandês está abaixo do nível do mar. Aliás, se não fosse o mar, a Holanda não estaria hoje aqui para contar história, já que surrupiou boa parte da sua área do oceano Atlântico. Um inteligente sistema de diques e drenagem transformou a região numa espécie de Veneza progressista.   

O país é plano, um adorável convite a pedaladas. Só em Amsterdam são quase 600 mil bicicletas para pouco menos de um milhão de habitantes. De Rotterdam – um dos maiores portos do mundo – ao caminho entre Leiden e Haarlem, na primavera – passando por riquezas medievais como Delft, a Holanda só reserva surpresas do início ao fim do passeio.   

O BARATO DA HOLANDA   

AMSTERDAM – A primeira coisa que você deve saber ao chegar a Amsterdam é que straat significa “rua” ou “estrada” e gracht, “canal”. Não se esqueça de plein que quer dizer “praça”. Pronto, você está preparado para entender os mapas que, lamento informar, nunca saem de graça nos quiosques de informação turística. Perto da estação central (Centraal Station), a uns 400 metros, está a essência histórica da cidade onde fica a Dam – praça com a catedral Nieuwe Kerk. Caminhe pela inquieta rua Damrak – entre a Dam e a Centraal Station. Bater perna ao redor dos canais também é aquela velha sugestão para decifrar a cidade sem gastar nenhum tostão. Justamente nessas andanças você deve encontrar duas tradicionais praças, a Leidseplein e Rembrandtplein. Passeio gratuito. Ambas oferecem uma variedade enorme de bares e restaurantes. Para conhecer um bairro típico de Amsterdam circule pelo Jordaan. Cheio de casinhas, ruazinhas, lojinhas, mercadinhos e todos os “inhos” que fazem das regiões tradicionais uma delícia de passeio. Os cafés e ateliês mais descolados estão aqui. No Bairro da Luz Vermelha (Red Light District) sua porção conservadora vai por canal abaixo. Aqui, prostitutas – profissão legalizada e pagadora de impostos na Holanda – ficam expostas em vitrines. Sim, estão ali a trabalho. Não é só para turista ver. Mesmo assim, o bairro está longe de ser uma região degradada ou perigosa. Há policiais disfarçados e cabe a você estar atento para não ser incomodado por algum chato vendendo haxixe ou maconha. Além de caminhar, você pode optar pelo aluguel de uma bicicleta. Não, não é uma sugestão alternativa. A bicicleta está para a Holanda como riquixá para a Índia: todo mundo tem que dar pelo menos uma voltinha. Alugue a sua na MacBike  (perto da estação de trem). Normalmente custa entre 4 e 6 euros por três horas. Ou, em média, 10 euros por um dia. Os principais museus da cidade são pagos e quase nenhum tem dias de entrada gratuita para adultos. Se você for fanático pelo tema e com muita organização talvez compense comprar o caro I Amsterdam Card . Custa 38 euros (um dia), 48 euros (dois dias) e 58 euros (três dias). O cartão dá direito à entrada gratuita em todos os museus da cidade (menos a Casa de Anne Frank, que é particular), um passeio de barco e 25% de descontos em outras atrações, aluguel de bicicleta e alguns restaurantes. Caso opte apenas pelos museus essenciais fique com o emocionante Museu Van Gogh (12,50 euros), Museu Casa de Rembrandt (8 euros), no ateliê onde o pintor trabalhava, Museu Rijksmuseum (11 euros)  com a maior coleção de arte do país e, claro, a Casa de Anne Frank (8,50 euros) – lugar onde a menina viveu escondida e escreveu seu famoso diário durante a ocupação nazista. A maioria é gratuita para crianças até 9 ou 12 anos. Estudantes têm descontos vantajosos. Próximo ao Van Gogh Museum está o Vondelpark, o parque mais popular de Amsterdã – para seu obrigatório piquenique da tarde. Site da cidade: www.visitamsterdam.com   

ROTTERDAM – A cidade que abriga o maior porto da Europa foi uma das mais atingidas durante a Segunda Guerra mundial. A reconstrução foi resultado dos intensos bombardeios. Nasceram prédios arrojados, arquitetura progressista e fachadas inusitadas como as casas cubistas. Assim como Amsterdam, as principais atrações de Rotterdam são seus bairros: Centrum – centrinho agitado com variado comércio, entre a estação de trem e a avenida Blaak; Waterfront – ao lado do rio Mass com suas pontes contemporâneas e o Museumpark – região dos museus. Mas ao contrário do capital holandesa, o centro de informações turísticas oferece mapas gratuitos e o Use-it  (na rua Schaatsbaan 41- 45) é especialista em turismo para mochileiros. Visite a igreja Laurenskerk de 1525. Foi muito danificada na segunda guerra e reinaugurada em 1968 após uma longa e demorada reforma. Entrada gratuita. Na mesma praça da igreja está a estátua do filósofo Erasmus, nascido na cidade. Para navegar pelo porto contrate tours organizados: passeios de barco a partir de 9 euros. A 20 quilômetros daqui está Gouda, famosíssima pelo queijo de mesmo nome. No verão, especialmente às quintas-feiras, há um enorme mercado de queijos de lamber os beiços. Rotterdam está uma hora de Amsterdam. Site da cidade:  

www.holland.com/rotterdam

   


Mercado de queijos na cidade de Gouda, a 20 quilômetros de Rotterdam. (Foto: Paulo Santos) 

  

DEN HAAG (HAIA) - A cidade é menor que Amsterdam e Rotterdam, mas parece mais cosmopolita. Lembrando que Den Haag é o nome em holandês, The Hague em inglês, e Haia em português. A capital político-administrativa do país tem avenidas largas, prédios modernos e é sede da Corte Internacional de Justiça, que fica no Vredespaleis (Palácio da Paz), visitas guiadas das 10h às 16h por 5 euros. No famoso Tribunal de Haia foi julgado e condenado à morte Slobodan Milosevic – acusado de crimes de guerra na antiga Iugoslávia. Para mim, vale como um bate-volta (está a uma hora de trem de Amsterdam), aproveitando metade do seu dia para o Mauritshuis Museum  que ganhou fama depois do filme Garota com o Brinco de Pérola. Neste museu encontra-se – além das famosas telas de autoretrato de Rembrandt – o quadro de Vermeer Girl with a Pearl Earring que deu nome à película estrelada por Scarlet Johansson. Entrada a 10,50 euros. Gratuito para menores de 18 anos. Site da cidade: www.denhaag.com    

PARA FUGIR DO ÓBVIO   

Se bem que eu acho um pouco óbvio, mas nem todo turista dá a devida atenção a Delft quando vem à Holanda, principalmente se for a primeira viagem para cá. É a típica cidade holandesa com vacas malhadas, moinhos e tulipas. Está a 15 minutos de Den Haag (Haia) e serve para um dos passeios mais agradáveis do país. A praça principal, Markt, está rodeada por canais. Abriga um delicioso mercado toda quinta-feira, dia ideal para conhecer Delft. Claro que você pode visitar algum museu e a catedral anglicana, mas dedique-se a seguir os passos de Vermeer e sua “Garota com o Brinco de Peróla”. O filme, inspirado no pintor, foi rodado aqui. Site da cidade: www.delft.nl    

SEM MARCAR TOUCA   

Decida quantos dias quer passar na Holanda. Agora acrescente mais dois e visite calmamente o parque de Kinderdijk, uma aérea com 19 moinhos de vento – Patrimônio da Humanidade.  Há três cidades de onde saem ônibus até o parque: Utrecht, Rotterdam e Dordrecht.  De Rotterdam são 45 minutos. Para saber os horários dos ônibus consulte o site da Arriva, empresa que opera esta linha. Partindo de Rotterdam fica fácil de colocar os moinhos num dia e a medieval Delft no outro. Essas 48 horas a mais no seu roteiro vão fazer toda a diferença no seu scrapbooking de viagem.  

 

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