quinta-feira, 29 de junho de 2006

PARINTINS: buuuumba o coração!

O maior espetáculo da terra acontece aqui. Parintins (a 20 horas de barco de Manaus, no Amazonas) está, neste fim de junho, igualzinha – ou pior – a uma decisão de copa do mundo. A diferença é que os dois adversários são brasileiríssimos. De um lado o vermelho do Boi Garantido. Do outro, o azulão do Boi Caprichoso. O Festival Folclórico de Parintins é o mais importante Boi Bumbá da Amazônia. A festa divide um mesmo povo. Quem é “Garantido” nem pronuncia o nome do outro – o “Caprichoso”, que passa a ser chamado de “Contrário” e vice-versa.

AZUL X VERMELHO

Localizada na Ilha de Tupinambarana e banhada pelo gigantão rio Amazonas, a cidade está metade azul metade vermelha. Literalmente. É surpreendente ver o que os nativos fazem para defender a bandeira do seu boi. No lado vermelho do povoado, onde está o curral do Boi Garantido até as placas de rua seguem a cor do boi do povão. Enquanto que na parte do Curral do Caprichoso a Coca-Cola (patrocinadora oficial do evento) teve que mudar a logomarca.

VERMELHÔ, O CURRAL…

Isso é o que a gente vê de dia. À noite, o Bumbódromo – lugar de apresentação dos bois – recebe 80 mil pessoas, gente do mundo inteiro. A televisão italiana vem fazer documentário, a alemã manda correspondente e eu, quando fui, fiquei hospedada no mesmo quarto dos enviados da Reuters e da Times. O Festival de Parintins ainda tem mais projeção lá fora do que aqui.

Mas o que atrai tanto? Você pode até achar que a Festa do Boi Bumbá de Parintins é uma carnaval amazonense. Nananinanô. A apresentação inclui – sim – música, puxador, fantasia, alas e alegorias. Mas é no conjunto folclórico, inspirado em lendas de pajelanças indígenas de várias tribos e costumes caboclos da amazônia, que está toda a diferença. Mulher pelada não tem vez. Só se for para representar os primeiros habitantes da ilha e olhe lá! Artista da Globo, só no camarote da Caras. Para entrar na arena, tem que ser gente daqui. Lembra do Davi Assayag, aquele cantor cego que ficou conhecido nacionalmente ao lado da Fafá de Belém cantando “Vermelhô, o curral, a ideologia do folclore avermelhou…”? Pois o homem é parintinense da gema e é o puxador oficial de toadas do Boi Garantido.

MAS A VACA É AMARELA

E porque um BOI? Tratando-se de Amazonas talvez fosse interessante incluir na festa a onça pintada ou a sucuri. Não o boi. Mas uma explicação no site oficial da festa diz que foi uma conseqüência do ciclo da borracha, quando muitos nordestinos vieram para cá trabalhar na extração do látex. Eram de uma região pecuarista e trouxeram seus costumes, como o Bumba-Meu-Boi das festas juninas.

Enquanto os jurados somente utilizam canetas de cor verde, para não haver influência no resultado por causa das cores (é ou não é pior que uma final de copa do mundo?) o turista que vem de fora fica arrebatado com a festa. Os bois têm um magnetismo fascinante e mesmo a gente, que não entende muito bem o regulamento do festival, acaba adotando um deles. O certo é que – no meio de tanta contenda – depois de três dias confinada nesta ilha é fácil compreender a principal regra do jogo: um boi não existe sem o outro.
Sem amarelar!
Tela: “Festa da Natureza”, de Glemberg Nascimento Castro, vencedor do concurso para o cartaz do Festival 2006

Entre tantas curiosidades deste festival uma me deixou petrificada. Quando o Boi Caprichoso – o azul – entra na arena, por exemplo, toda a arquibancada vermelha fica muda, calada, nem um pio. Brincam de vaca amarela e pronto. O mesmo ocorre quando o Boi Garantido – o vermelho – inicia a apresentação. Os azulões que quase perdiam os bofes de tanto gritar e torcer, simplesmente sentam e se calam. Até o fim da apresentação. São três horas para cada boi.

Nota: Todos os anos, desde sempre, o Festival de Parintins é realizado nos dias 28, 29 e 30/06. Este ano o evento mudou para os dias 30/06 e 01 e 02/07.

Posts relacionados:

PARINTINS: Caprichoso X Garantido

Manaus: no meio da floresta?

Share