terça-feira, 17 de agosto de 2010

Portugal a 50 euros por dia – Parte 1


Padrão dos Descobrimentos, em Lisboa: homenagem aos antigos navegadores.

Tive a honra, o prazer e o privilégio de morar por dois meses em Lisboa. Finalizar a série “Europa a 50 euros” com Portugal me dá aquele nó na garganta. De saudades… palavra tão nossa, tão portuguesa. Pois então, para os padrões europeus, Portugal é o país da pechincha.

Sendo um dos menores da Europa, é possível atravessá-lo de cima para baixo em poucas horas. São 800 quilômetros de norte a sul. Com gastronomia rica, dizem, há mais de 300 receitas de bacalhoada. Os mais variados restaurantes oferecem o prato e com preços incrivelmente acessíveis.

Um dos mais antigos países da Europa, Portugal permaneceu isolado durante cinquenta anos da ditadura de Salazar. Quando conquistou a liberdade teve que lutar contra o empobrecimento da população. A integração à União Europeia trouxe muitos investimentos ao país e transformou a terra dos fados, dos pastéis e das grandes navegações em uma preciosa – e muitas vezes esnobada pelo viajante – jóia da Península Ibérica.

Eles têm => Fernando Pessoa: o poeta que disse “tudo vale a pena se a alma não é pequena”.

Eles não têm => Culpa no cartório: nós somos o que somos – para bem ou para mal – por culpa ou responsabilidade nossa. Os portugueses descobriram o Brasil há 500 anos. E isso já faz tempo, gajos! Se eles tivessem tido tanta influência assim nas nossas mazelas (ou cultura) provavelmente nossa feijoada seria à base de azeite, o samba seria “Ai bate o pé, bate o pé, bate o pé” e as nossas cores nem seriam verde e amarela e, sim, verde e… vermelha.

O português sem gerundismo

Os portugueses passaram pelo domínio árabe, foram os pais dos descobrimentos marítimos, sofreram um terremoto em 1755 que destruiu a capital do país. Tiveram um Marquês, o de Pombal, que reconstruiu a cidade – e um Salazar, o ditador que voltou, digamos, a destruí-la!

Há quem goste do moço só porque Portugal passou longe da 2ª Guerra, graças ao que chamaram de “engenhosa diplomacia portuguesa”. Desculpe, mas eu estou falando de liberdade. Ou da falta de… Hoje, moderna e democrática, busca um lugar ao sol na União Europeia.

Nos doces e vinhos temos a alma portuguesa. Escute um fado – aquele ritmo entre Roberto Carlos e Alcione – para você ver… e sentir. Os melhores albergues do mundo – segundo o Hostelword.com – estão em Portugal. Além disso, preservam o idioma com coragem.

Os portugueses não têm gerundismo. Jamais “estarão retornando a ligação” ou “estarão entrando em contato” com você. Estás a perceber? Mesmo assim, quando você começar a aprender a língua que eles falam, já vai estar quase na hora de ir embora.

O BARATO DE PORTUGAL

LISBOA – Com disposição, em dois dias é possível conhecer o básico da cidade. Comece pela Praça do Comércio, à beira do rio Tejo. Dê as costas para o rio e verá o arco da rua Augusta, o início de um calçadão cheio de lojas, cafés, bancos, casas de câmbio e floriculturas ao ar livre. No fim desta ruazona para pedestres está a Praça do Rossio com uma estátua do nosso Dom Pedro I, véio de guerra. Ao lado tem a Praça da Figueira, uma espécie de boca maldita portuguesa e daqui de baixo é possível ver as muralhas do Castelo São Jorge lááá em cima. Até agora, aproveite, tudo grátis! Afunde-se na história lisboeta. Entrada a € 5.  Do lado oposto à Praça da Figueira está a Praça dos Restauradores com um enorme obelisco erguido após a libertação de Portugal do domínio espanhol em 1640. O Chiado, vizinho à Baixa, está cheio de lojas chiques, o bairro também é sede da ancestral Livraria Bertrand, aberta desde 1732. Visita grátis. A galeria Armazéns do Chiado tem três andares de lojas óbvias, mas a visita vale a pena porque é uma construção histórica totalmente recuperada. Alfama é o ponto alto – em todos os sentidos – de uma visita a Lisboa. Subindo ladeira em direção ao Castelo de São Jorge a primeira parada é a Catedral da Sé, construída sobre uma antiga mesquita. Numa das capelas está a pia onde Santo Antônio foi batizado. Santo Antônio de Pádua, o casamenteiro, era português! Entrada grátis. € 2,50 para visitar os claustros.  Caminhado um pouco mais a gente dá de cara com o Miradouro de Santa Luzia, que promove uma daquelas vistas exuberantes da capital portuguesa. Por aqui, às terças e aos sábados acontece a Feira da Ladra, estilo mercado das pulgas. Vendem de lâmpada queimada a artesanato regional, passando por xícaras de porcelana do século 16  a reproduções do Galinho de Barcelos. Faça o trajeto com o Eléctrico 28, um clássico na cidade. Por € 1,40 você sobe as  ladeiras montado em um bonde com conservados bancos de madeiras. Belém é um bairro da capital portuguesa. Aqui, visite a Torre de Belém ( € 3 e grátis aos domingos) e o Mosteiro dos Jerônimos (gratuito aos domingos e € 4,50 para conhecer os claustros) que fica em frente. Termine sua visita – ou comece – no outro lado da cidade: no Parque das Nações, a Lisboa moderna, progressista e atual. Entrada grátis. Algumas das atrações são pagas como o Oceanário – o maior aquário da Europa. Entrada a € 11.  Site da cidade: www.visitlisboa.com

CASCAIS – A partir de Belém siga para Cascais. Bem ao lado da estação de Cascais tem um posto de informações turísticas que dá mapinha, indica as atrações do dia e oferece até cafezinho. A praia? Está logo ali. Não é a melhor do mundo para quem está acostumado com praias… brasileiras. Mas vale um fim de tarde por aqui. Pegue o trem na estação Cais do Sodré – o trajeto de 40 minutos percorre um lindo trecho do lendário Rio Tejo – e por menos de € 2 (valor da passagem) passe o dia nessa antiga vila de pescadores. A melhor e mais bonita praia da região é a do Guincho. A prefeitura oferece – de graça – biciletas para circular pela região.

SINTRA   E  ÓBIDOS – São cidades Patrimônios da Humanidade, tudo pertinho de Lisboa. Dá para ir e voltar no mesmo dia. A passagem de trem da capital para Sintra, por exemplo, custa módicos € 1,70. A viagem dura 45 minutos.

PORTO – A segunda maior cidade de Portugal está situada no alto de uma colina, cortada pelo Rio Douro. A base da economia local é o tradicionalíssimo vinho do… Porto. O cartão-postal do Porto é a Ribeira, declarada Patrimônio Mundial pela UNESCO. É um conjunto de casas antigas e coloridas, arcadas, becos, fachadas de azulejos e ruas de pedra. Além de todo esse charme e originalidade é uma das cidades mais baratas do país. Site da cidade: www.portoturismo.pt

COIMBRA – Já foi capital do país e hoje abriga a universidade mais antiga do mundo, criada em 1290. Justamente por ser o ícone da cidade, a Universidade de Coimbra – que guarda a Biblioteca Joanina, com mais de 200 mil livros – torna-se passeio compulsório. São € 9 o tour completo. Não é barato, mas vale à pena. Se não quiser colocar a mão no bolso contente-se com a Sé Velha, uma das mais antigas catedrais do país. Aqui, admire – sem pressa – o claustro gótico, o mais antigo de Portugal. Entrada grátis. (€ 1,50 para visitar os claustros). Site da cidade: www.turismodecoimbra.pt

FÁTIMA – É passeio para uma tarde. Fátima está a 147 quilômetros de Lisboa e é um dos maiores centros de peregrinação católica do mundo. Recebe em torno de 4 milhões de fiéis todos os anos. (O Brasil – inteiro – recebe um pouco mais do que isso por ano). Mesmo se você não for católico, mas aprecia gigantes santuários, vai gostar. É uma visita muito agradável. (Menos em maio, quando a cidade lota. Foi nesse mês, em 1917, que a Virgem teria aparecido aos três pastorinhos.) Além da sublime Basílica, há uma delicada capela construída no local das aparições. Grátis.

ALGARVE – Meu sonho de consumo. No Algarve o sol brilha mais de 200 dias por ano. É a região que mais recebe irradiação solar em toda a Europa. Portanto, o litoral é invadido por hordas de portugueses e europeus a cada fim de semana ou feriado. De Lisboa são 40 minutos de vôo ou três horas e meia de ônibus. O bilhete rodoviário custa em torno de € 20. Como as praias estão espalhadas, o ideal seria alugar um carro para zanzar entre elas. Mas com orçamento apertado, prefira o trem e arme a barraca em Faro (a capital do Algarve) ou Albufeira (mais cosmopolita).

PARA FUGIR DO ÓBVIO

Se você não se animar muito com Fátima, corra para Tomar, a 20 quilômetros dali. Tomar é a capital dos Templários, famosa ordem religiosa dos tempos das Cruzadas. Por aqui, visite o Convento de Cristo, monumento Patrimônio Histórico da Humanidade. Foi fundado em 1162 pelo Grão-Mestre dos Templários, Dom Gualdim Pais. Mescla arquiteturas gótica, românica, barroca e manuelina. Bilhete individual a € 6. Entrada gratuita aos domingos e feriados até às 14h.

SEM MARCAR TOUCA

Existem casas da fados maravilhosas – e caras para o padrão do turista mão-de-vaca-muquirana. Para não perder a oportunidade de escutar o ritmo-marca-registrada de Portugal sem ter que passar o dia segunite à base de pão e água vá a Tasca do Chico. É uma espécie de karaokê, versão Ídolos-fase-final – ou seja, qualquer um pode ir lá e dar seu show. Mas ao contrário dos nossos karaokês tupiniquins, os “cantores” de lá são realmente bons. Eles chamam de Fado Vadio. O restaurante é super pequeno, chegue cedo se não quiser ficar em pé. Não é obrigado a consumir para assistir ao espetáculo. O Tasca do Chico fica na Rua do Diário de Notícias, 39. Tel.: 21 343 1040.

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