-  Atualizado 28/01/2012

São Paulo: onde a literatura vira obra de arte

Publicado por: Silvia Oliveira Brasil, São Paulo
Viver é negócio muito perigoso“.
Guimarães Rosa


O Museu da Língua Portuguesa foi instalado na Estação da Luz a dedo. A construção foi ponto de encontro das mais diversas línguas imigrantes que chegavam a São Paulo no século 20. Ao lado da trajetória do nosso idioma – que nasceu, há 4 mil anos, em algum território que se estendia da Ásia à Europa – está a espetacular exposição que comemora os 50 anos da obra Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa.

Amor só mente para dizer maior verdade“.
Guimarães Rosa

Mesmo quem não leu o livro vai poder mergulhar na linguagem primorosa que o discurso rosiano oferece. A mostra consegue retratar a alma do autor e o seu escrever, deixando o lúdico encontro tão arrebatador quanto a própria publicação. Numa sala cheia de varais – que lembram um pouco a literatura de cordel – estão ampliadas folhas datilografadas da 3ª edição do livro. Achei de uma criatividade incrível. Estou tão acostumada aos museus tradicionais do quadro-escultura-obra-louca que fiquei assombrada com a delicadeza da idéia de retratar a literatura de forma tão festiva e inovadora.

Deus é paciência“.
Guimarães Rosa

Os painéis gigantes revelam as alterações e correções que o autor fazia de próprio punho. Uma demonstração de que a composição de textos é um exercício constante e mutável. Revela que o talento de um grande escritor nada mais é que um buscar persistente e inabalável pela forma e conteúdo perfeitos. A gente que escreve – looonge de querer se comparar a um Guimarães Rosa, passa por isso também. Essas linhas que vos apresento não saíram de primeira, desse jeito, limpinhas, prontas para você ler. Já escrevi, reescrevi, pesquisei, mudei palavras, tirei algumas, acrescentei outras. Sem contar que não sei usar as vírgulas e sempre tenho dificuldade com a crase. E mesmo depois de publicado eu mexo no texto. Algo como uma 4ª ou 5ª edição revisada do post.

Quem desconfia fica sábio“.
Guimarães Rosa
Como a linguagem utilizada por Guimarães Rosa ultrapassa as dimensões poéticas pela riqueza de palavras e frases brilhantes, a exposição – além de criar o ambiente agreste e regional de Grande Sertão: Veredas – transpõe o óbvio. Em tambores espalhados pelo salão, trechos das conversas entre Riobaldo e Diadorim, personagens antológicos do livro. Tudo escrito ao contrário, só o espelho permite a leitura correta. O ler aqui não é simplesmente um movimento dos olhos associado a um batimento cardíaco mais forte ou suave. Para entrar no universo do autor o visitante não lê, enxerga.

“Toda saudade é uma espécie de velhice”.
Guimarães Rosa

O aforismo (frases ou reflexões de efeito, uma das características lingüísticas da obra) está espalhado pela andar que abriga a exposição. Estão em tijolos as máximas que transformaram Guimarães Rosa em um dos maiores autores do modernismo brasileiro. Entre elas, “toda saudade é uma espécie de velhice” ou “a liberdade é assim, movimentação” e a famosa “viver é negócio muito perigoso”.


O sertão é do tamanho do mundo“.
Guimarães Rosa

A obra, narrada em 1ª pessoa por Riobaldo, ocorre no sertão mineiro, sul da Bahia e Goiás. A narrativa é densa e tem caráter universal – aquela história do homem e seu destino – sendo comparada por muitos à obra-prima Dom Quixote de La Mancha, do espanhol Miguel de Cervantes. Para dar essa idéia de universalidade, outra idéia genial dos organizadores da exposição: os fragmentos escritos nos entulhos. De perto, numa primeira olhada, não é possível decifrar o texto. Parece todo entrecortado. Mas subindo em escadas estrategicamente colocadas em diversos pontos da mostra o visitante consegue identificar a abastança de idéias, o modo de historiar e o uso radical e inteligente que João Guimarães Rosa fez da língua portuguesa.

Serviço:

A mostra Grande Sertão: Veredas está no Museu da Língua Portuguesa por tempo indeterminado.
Local: Estação da Luz. Praça da Luz, nº 01 – São Paulo
Horário: 10h às 18h (última entrada permitida às 17h). De Terça a Domingo.
Ingresso: R$ 4,00 – Estudante paga meia. Menores de 10 anos e professores da rede pública não pagam. A entrada dá direito a conhecer o museu inteiro.

Fotos: Raul Mattar

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2 comentários

  1. Selmira
    Comentário do dia 19/12/2006 às 12:14

    Guimarães Rosa era mineirim, mineirim…

    (Responder)

  2. murilo simpson
    Comentário do dia 19/12/2006 às 14:51

    A obra foi relançada. R$ 160 pilas!

    (Responder)

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