Silvia Oliveira

Buenos Aires bairro a bairro

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Buenos Aires bairro a bairro: Centro e Monserrat

Quase não dá para perceber quando termina um e começa o outro. A região central, na verdade, é formada por microbairros (Monserrat, San Nicolás e Congresso) que se aglutinam formando a parte mais ruidosa de Buenos Aires.


Plaza de Mayo: ponto de protestos há quase 300 anos.


Casa Rosada: sede do governo argentino.

O coração político da cidade está em Montserrat. Aqui fica a emblemática Plaza de Mayo, onde mães – hoje avós – há mais de 30 anos saem em protesto contra o governo, exigindo a volta do seus filhos desaparecidos nos porões da ditadura militar.

Em frente a plaza está a Casa Rosada que – dizem os poetas – era uma referência à conciliação política já que as cores dos partidos rivais no século 19 eram branca e vermelha. Mas reza a história que a cor da Casa de Gobierno é mistura de cal e sangue de boi usada para impermeabilizar as paredes.


Catedral: piso de mosaico veneziano montado na Inglaterra.

Neste quadrilátero você encontra a Catedral Metropolitana com uma discutível fachada greco-romana. Não que seja de mau gosto. Mas parece tudo, menos igreja. Os restos mortais do líder da independência San Martín estão aqui. Na parte interna, destaque para o piso feito de mosaico veneziano.


Congresso Nacional: cúpula de bronze e biblioteca com 3 milhões de livros.

Caminhando pela Av. de Mayo em direção ao Congresso Nacional está o Café Tortoni, um entre centenas de cafés que existem na cidade. Mas era neste que se reuniam Borges, às vezes Gardel e – por um período – até García Lorca, que viveu na cidade em 1933. Foi inaugurado em 1858 e preserva tudo intacto: espelhos, cristais, lustres. Para entrar há fila e o tempo de espera pode chegar a uma hora. Oferece show de tango por 100 pesos (R$ 40).


Café Tortoni: ponto tradicional e turístico da cidade.

Quase na divisa com San Telmo está a curiosa Manzana de Las Luces (Quarteirão das Luzes). O local recebeu este nome por causa da filosofia iluminista das escolas que ocuparam o conjunto de construções históricas. A quadra compreende as ruas Alsina, Moreno, Bolívar e Peru. Há enigmáticos túneis subterrâneos que conectam igrejas e edifícios públicos.


Farmacia de la Estrella: preserva móveis, pisos e lustres há dois séculos.

Depois de bisbilhotar a Farmacia de La Estrella, a mais antiga da cidade, visite no prédio ao lado o Museo de la Ciudad com mostras permanentes e temporárias que retratam a história portenha dos séculos 18 e 19.


Galerias Pacífico: um respiro no meio da Calle Florida.

Entrando no miolinho do centro propriamente dito você cai na suvaqueira da Calle Florida, uma espécie de calçadão com trânsito exclusivo para pedestre. São 10 quarteirões de comércio popular e ambulante. Um refresco logo aparece com as Galerias Pacífico, uma mistura da galeria Lafayette de Paris com a Vittorio Emmanuele de Milão. Trata-se de um shopping lindo com afrescos no teto. O Centro Cultural Borges, no último andar, é um dos principais atrativos da galeria.


Fachada do Teatro Colón: marco na arquitetura portenha.

Já o Teatro Colón é um marco na arquitetura de Buenos Aires. Foi todo restaurado para comemorar o bicentenário da independência. É possível assistir a óperas, balé e concertos variados. Tem capacidade para mais de 3 mil pessoas. Vale à pena a visita guiada. (Aliás, só é possível visitá-lo com monitores). Todos os dias (inclusive feriados), de hora em hora. O último tour sai às 15h45. Custa 60 pesos (R$ 24) para estrangeiros.


Restaurante da Manzana de las Luces: toca música barroca.

O QUE FAZER

Plaza de Mayo | Há quase 300 anos é palco das manifestações populares em Buenos Aires. Todas as quintas-feiras, às 15h30, as Madres de la Plaza de Mayo andam em círculo com lenços brancos na cabeça em memória aos filhos desparecido na ditadura militar argentina.

Casa Rosada | É sede do poder executivo. Tem um museu com objetos de ex-presidentes. Há troca de guarda de 2 em 2 horas, das 7h às 19h. A visita guiada (sáb. e dom., 10h às 18h) faz uma paradinha estratégica na célebre sacada que imortalizou os discursos de Evita. Grátis.

Manzana de las Luces | Conhecido como Quarteirão das Luzes por receber pensadores do Iluminismo. A Igreja San Ignacio (1675) – a mais antiga de Buenos Aires – faz parte do complexo. O pátio é um antigo claustro jesuíta do século 18 para armazenar mercadorias das missões. Sob o pátio é possível vislumbrar algumas partes dos túneis coloniais que, dizem, conectavam a construção com a Catedral e o Cabildo. Para conhecer a parte interna somente com visitas guiadas.

Catedral | É uma espécie de Paternon no centro de Buenos Aires. A fachada lembra um templo grego. Se não me falassem jamais imaginaria que ali estivesse uma igreja católica. Tem púlpito talhado em prata e piso veneziano. Está em frente à Plaza de Mayo.

Congresso | Fica num prédio bonito e imponente com uma enorme cúpula de cobre – lembra um pouco o congresso nacional americano. Abriga uma biblioteca com 3 milhões de livros. Oferece visitas guiadas grátis.

Teatro Colón | Já recebeu de Maria Callas a Stravinsky. Tem orquestra e filarmônica. A enorme escadaria de mármore e o candelabro central de sete metros impressionam. Para conhecer somente com visita guiada.

Obelisco | Com 67 metros de altura é uma espécie de marco zero da cidade. É um daqueles monumentos feiosos do tipo ame-o ou deixe-o.


Na Av. 9 de Julio uma homenagem ao escritor argentino Ernesto Sabato, falecido em abril deste ano.

ONDE COMER

Café Tortoni |  Um clássico na cidade. Ponto de encontro de intelectuais e boêmios famosos, o Tortoni preserva todo o mobiliário original desde a inauguração, em 1858. O Café Continental – tostadas, manteiga, geleia, doce de leite, café e um suco – sai por 30 pesos (R$ 12).

El Palacio de la Papa Frita |  Com mais de 50 anos de tradição, oferece as tradicionais batatas soufflé. São pedaços de batatas infladas, crocantes por fora e macias por dentro. Tem menu turístico com entrada, prato principal, sobremesa e bebida (incluindo vinho) por 95 pesos (R$ 38) por pessoa.

Ivan Express | Um quiosco ajeitado bem no meio da muvuca-arruaça da Calle Florida. É uma mistura de padaria com lanchonete com decoração típica portenha. Para um lanchinho rápido ou uma empanada quentinha.

ONDE COMPRAR

Calle Florida | É uma das principais artérias do centro comercial de Buenos Aires. Por ali você encontra dezenas de lojas vendendo de cosmético a eletrônicos. Algumas grifes como Lacoste, Christian Dior e Brooksfield deixam a rua menos feia. A Falabella, a maior loja de departamento da Argentina, fica bem próxima da Zara, ambas na altura do nº 600. A Galerias Pacífico é um shopping completo, bonito, com diversos lojas e praça de alimentação.

COMO CHEGAR

Ônibus: 22, 24, 28, 29, 64, 86, 105, 111. Metrô: Para a Plaza de Mayo desça nas Estação Plaza de Mayo (Linha A) ou Estação Catedral (Linha D). Para sair exatamente em frente ao Tortoni desça na Estação Piedras (Linha A). Já para ficar próximo à Manzana de las Luces sua opção é a Estação Bolívar (Linha E).

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Fotos: Raul Mattar

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quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Buenos Aires bairro a bairro: San Telmo

É um bairro bem-apanhado, do tipo boa-praça. Dos antiquários às principais casas de tango, San Telmo forma uma das mais antigas áreas de Buenos Aires. São inúmeros casarões dos séculos 18 e 19 que se transformaram ao longo dos anos em charmosos albergues, pequenos hotéis, restaurantinhos e um sem-fim de lojas de antiguidades.

Já foi a região mais abastada de Buenos Aires, mas uma epidemia de febre amarela vinda do porto espantou os barões deste recanto. Depois de muitos anos, o bairro foi redescoberto e os casarões, restaurados. São mais de 500 antiquários – pequenos museus com entrada franca – vendendo toda a sorte de móveis e objetos de decoração.

Mas se você acha que antiquário é sinônimo de velharia, deixe para visitar a principal feira do bairro, que acontece aos domingos na Plaza Dorrego. É uma Feira de Antiguidades que mistura uma pouco da Feira do Largo da Ordem de Curitiba com a Rua Uruguaiana, no Rio de Janeiro. Dá de tudo. Eu, particularmente, adoro. Mas “eu”, como sabem, não conta!

Mesmo quem não gosta de antiguidades ou do movimento tangueiro, San Telmo é uma opção charmosa para um passeio descompromissado. Por aqui viveu Quino, o célebre cartunista argentino, criador da sapeca e boca-dura Mafalda. Na esquina da Calle Defensa com a Chile é possível levar uma foto ao lado da escultura da famosa personagem.

 Casa  Mínima: construção com a menor fachada da cidade.

Espremido entre o operário La Boca e o central Monserrat, San Telmo abriga também a Casa Mínima, uma curiosa construção com a menor fachada da cidade, apenas 2,2 metros de frente. Fica na Pasaje San Lorenzo, nº 380, a meia quadra do El Zanjón de Granados, uma relíquia arqueológica.

O QUE FAZER

Feria de San Telmo |  Na Plaza Dorrego, barracas tiram do fundo do baú um arsenal de antiguidades, quinquilharias e badulaques de encher os olhos e o coração de saudades. Todo domingo, das 10h às 17h.

Calle Defensa | É a principal rua do bairro com algumas das mais antigas construções históricas de toda a cidade.

Igreja Apostólica Ortodoxa Russa | Com cinco cúpulas azuis, foi inspirada na arquitetura típica daquele país.

Casa Mínima | Curiosa construção com a menor fachada da cidade, apenas 2,20 de frente. Já foi habitada por marinheiros e pescadores.

Distrito Balcarce | É um dos pedaços mais típicos de San Telmo, com ruas de pedra e luminárias antigas. Fica no quadrilátero entre as Calles Belgrano e Independencia.

El Zanjón de Granados |  Um antigo casarão restaurado que permite um mergulho no passado histórico de Buenos Aires. O local é um achado arqueológico que ficou adormecido por 400 anos. Túneis subterrâneos, cisternas, paredes originais podem ser observados durante a visita guiada.

ONDE COMER

Gran Parrilla del Plata |  Bodegón que preserva na decoração azulejos da década de 20. Serve deliciosas carnes a preços atrativos. Reservar com antecedência.

Brasserie Petanque |  Autêntica comida francesa no miolinho de San Telmo. Comandada pelo Chef Sébastien Fouillade, a casa oferece no Menu do dia (Menu du Jour) entrada, prato principal e sobremesa por 52 pesos, algo como R$ 21. Inclui água ou refrigerante.

ONDE COMPRAR

Cualquier Verdura |  Instalada num antigo casarão do século 19, tudo que dentro desta casa está a venda. Os donos etiquetam os produtos como “Nuevo”, “Antiguo”, “Industria Argentina” e “Nos da pena vender”. Funciona de quinta a domingo. Está a meia quadra da Feria de San Telmo.

COMO CHEGAR

Ônibus: 24, 28, 29, 65, 70, 130, 195. Não é servido por metrô. Táxi do centro até aqui: 12,00 pesos ou R$ 5. (Valores aproximados)

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Fotos: Raul Mattar

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terça-feira, 18 de outubro de 2011

Buenos Aires bairro a bairro: La Boca

É inevitável. Você compra seu pacotinho para Buenos Aires e o primeiro city tour despeja você no bairro La Boca, onde está o ponto turístico mais famoso e fotografado da cidade: o Caminito. O que não significa que seja o melhor nem o mais bonito lugar da capital argentina – mas, com certeza, é o mais tradicional. O próximo passo é voltar falando mal da região, o que inclui os restaurantinhos safados e os tangueiros mequetrefes que cobram para que você tire aquela foto-jacu no colo deles. É assim mesmo. Um dia eu tirei. Um dia você vai tirar.

Certo, o La Boca não é um bairro arborizado e sofisticado como a Recoleta, muito menos passou por qualquer revitalização à la Puerto Madero. Mas eu gosto desse pedacinho de Buenos Aires. Não entendo porque apedrejar tanto um lugar superfotogênico que aglomera diversos ateliês e exposições ao ar livre, além de oferecer showzinhos de tango (ordinários, eu sei) de graça! Sem contar aquelas figuras sinistras que imitam Carlos Gardel ou fingem ser Maradona. Divertido, no mínimo.

De fato, o La Boca era o bairro que tinha tudo para dar errado: está na boca do porto, foi centro de prostituição e as casas eram (algumas ainda são) casebres improvisados com chapas de aço e zinco para abrigar os imigrantes e a pobreza. Até hoje é um bairro marginalizado e, por conta disso, mais perigoso. Mas não deixou de ser menos turístico. Assim como você enfrenta uma certa muvuca nos clássicos de qualquer país e paga de turista-bocó, aqui não será diferente. Simplesmente faz parte do jogo. Quer queira quer não, somos um deles – tentando levar aquela fotinho manjada para casa!

Até que apareceu Benito Quinquela Martín, um dos mais populares pintores argentinos. O artista, que viveu até os seis anos em um orfanato e morreu na década de 70, adotou o bairro La Boca quando adulto. Sem imaginar que ali criaria o principal – pelo menos o mais visitado – cartão-postal da cidade, Quinquela Martín e alguns amigos saíram pintando uma pequena rua de várias cores, transformando em arco-íris o cinza dos antigos cortiços.


Minha mãe no momento-rodízio: “agora é sua vez de carregar a Mariana no colo.”

Na parte que eles chamam de Calle Museo Caminito há representativas obras e esculturas (permanentes e ao ar livre) de artistas portenhos, entre elas o “Herrero Boquense” e “Las tejedoras” – que retratam algumas das principais profissões do início do século 20. E ao lado das casinhas coloridas, está a Fundação Proa, um dos principais centros de arte contemporânea de Buenos Aires. Só não se arrisque: evite se afastar da região turística e cuide bem da sua máquina fotográfica.


Fundación Proa: centro cultural renova o ponto mais turístico da cidade.

O QUE FAZER

Caminito | Uma rua pitoresca com enorme valor histórico, embora a turistagem excessiva por ali tenha apagado esse lado importante do bairro. Circule também pela Calle Magallanes, uma quadra megaturística cheinha de lojas de recuerdos portenhos.

La Bombonera | É o estádio do Boca Júniors. Aproveite para visitar o Museo de la Pasión Boquense – com mais de 100 anos de história sobre o clube que revelou Maradona.

Fundación Proa | Além das exposições, aprecie o Café Proa – com ótima vista para o Rio Riachuelo.

Museo Quinquela Martín | Abriga a casa-ateliê do artista que ajudou a renovar o bairro La Boca, além de obras de importantes pintores argentinos. Oferece visitas guiadas nos fins de semana.

ONDE COMER

El Obrero | Considerado a parrilla cult da região, já recebeu astros da música e até o rei da Espanha. Mas não se engane, é um bodegón típico – que oscila entre a decoração brega e o atendimento amigo.

ONDE COMPRAR

Não saberia indicar uma única lojinha. Uma das atividades inerentes deste passeio é entrar e sair dos pequenos estabelecimentos que quase sempre vendem a mesma coisa: camisetas, quadros, imãs, peças com fileteado e objetos com as fotos do Maradona, da Evita, do Carlos Gardel e da Mafalda.

MOMENTO-EXTRAVAGÂNCIA

Patagônia Sur | Instalado num antigo casarão boquense, este restaurante estrelado está a uma quadra do Caminito. Para provar as receitas descoladas do famoso chef Francis Mallmann paga-se 510 pesos (R$ 206,00) pelo menu degustação (couvert, entrada, prato e sobremesa) – um dos mais caros e, dizem, saborosos da cidade. Preço por pessoa.

COMO CHEGAR

Ônibus: 25, 29, 33, 64, 152. Não é servido por metrô. Táxi do centro até aqui: 21 pesos ou R$ 8,50. (Valores aproximados).

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Fotos: Raul Mattar e Sílvia Oliveira

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MATRAQUEANDO - Viagens e Comidinhas | Por Sílvia Oliveira | Jornalista | Curitiba, BR

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