Silvia Oliveira

Crônicas

quarta-feira, 09 de maio de 2012

Etiqueta para quem viaja acompanhado

Viajar sozinho é bem mais fácil do que parece. Somos donos do nosso próprio itinerário. Fazemos e desfazemos roteiros a nosso bel-prazer, sem avisar ninguém, com risco zero de desagradar o outro. Não há ninguém para reclamar, impor condições, nem dizer “não gosto disso”, “não quero ir” ou “estou cansado”.

Já quem viaja acompanhado deve saber trabalhar em equipe. Acredite, o seu parceiro pode ser bem diferente daquele que você conhece há anos depois de caminhar três quilômetros todos os dias vasculhando os bairros da capital francesa. O pensador norte-americano, Mark Twain, dizia que para descobrir se você ama ou odeia uma pessoa basta viajarem juntos.

Quando se viaja acompanhado, o trabalho é dobrado. Seja tolerante, respeite os limites do outro, ofereça ajuda e esteja preparado para os imprevistos. Na verdade, os imprevistos são testes. Resta saber como você passará por eles.

1. TOMEM AS DECISÕES EM CONJUNTO

A escolha do passeio adequado, de acordo com o tempo (e disposição) do grupo, conforme o orçamento do dia e moldada aos nossos gostos e preferências talvez seja o momento mais difícil do processo. Analise (e descarte) opções, peça a opinião um do outro. Fale baixo, seja suaves e amorosos – mesmo quando perderem o trem, errarem o caminho ou pedirem o prato errado.

2. PLANEJEM NA NOITE ANTERIOR

Acordar sem saber para onde ir é um erro terrível em qualquer viagem, a não ser que seu destino seja um resort. Mesmo que você tenha optado por um roteiro mais flexível, pelo menos um dia antes, estude o que vai fazer após o café da manhã. Defina seus objetivos. Selecione os programas do passeio. Leve em conta possíveis variáveis: sol, chuva, calor frio, montanha, praia, cidade pequena, cidade grande. Busque oportunidades: vá aonde ninguém quer ir. Depois me escreva para contar que descobriu um lugar que nenhum guia ou blog indicou. Nem este.

3. SUPEREM JUNTOS OS DESAFIOS DA VIAGEM

Não tenham medo do desconhecido. Acredite, as viagens são boazinhas. E até aquelas que não saem exatamente como a gente planejou têm seu valor. Quando você erra, invariavelmente, aprende! Por isso, quando algo parece não sair conforme o imaginado é hora de se sentar – de preferência num lindo parque primaveril – para reconduzir o roteiro – readequá-lo ou revê-lo, se isso for imperativo.

4. SAIBAM OUVIR UM AO OUTRO

Influencie positivamente seu acompanhante.  Não fique mal humorado, nem desconte no outra a dor no calcanhar. Nem reclame do excesso de museu e igreja. Saiba ouvir, entre em um acordo e busque paciência até onde não pode imaginar.

5. SEJAM CRIATIVOS

Os seres resilientes são capazes de vencer dificuldades, de aprender com a adversidade e – através de soluções criativas – de superar qualquer problema. Viajar não é fácil. Além de planejamento e dedicação, algumas coisas podem sair do seu controle. O voo é cancelado, a comida faz mal, chove sem parar. Supere e pronto. Ria da situação e, acredite, perrengues fazem parte do genoma das viagens.

Posts relacionados

Qual é a viagem certa para você?

Como diferenciar uma hospedagem simples da pobre de espírito

Como se livrar do enochato?

Turismo de compras: como não ir à falência

Os sete pecados capitais do turista

Foto: Raul e Silvia no Atacama. Viajando juntos há 16 anos!

———————–

Siga o Matraqueando no Twitter | @matraqueando

Curta nossa página no Facebook | Matraqueando

Assine nossa Newsletter | Matraca News por e-mail

Share
segunda-feira, 11 de julho de 2011

Qual é a viagem certa para você?

Não existe. Leu bem: não há uma viagem certa para um determinado perfil de viajante. O que existem são pessoas  mais – ou menos – adequadas para determinadas viagens. Quem faz o passeio é o turista. Não o contrário. Não basta perguntar se você prefere praia ou montanha, vinho ou cerveja. O que estabelece o índice de sucesso das suas férias são suas expectativas, grau de tolerância, experiências anteriores e capacidade de adaptação.

Ninguém pode decretar se o Alasca é um bom passeio para levar seu bebê de dois meses. Nem mesmo se é o destino mais sensato para ir com seu namorado(a). Muito menos temos como descobrir se você deve ir, de fato, acompanhado. Viajar sozinho, aliás, é bem mais fácil do que parece. Somos donos do nosso próprio itinerário. Fazemos e desfazemos roteiros a nosso bel-prazer, sem avisar ninguém – com risco zero de desagradar o outro.

Já viajar em dupla ou grupo requer um certo espírito de equipe. Se você pensa que está preparado para enfrentar o mal-humor matinal do seu parceiro saiba: todas as nossas características – que vão do comportamento banal ao transtorno obsessivo – costumam se agigantar fora de casa. É a Síndrome do Momento-Patrão, à qual somos submetidos sempre que taxistas, garçons e camareiras passam a ser nossos pseudo-funcionários.

Identificar um roteiro infalível – e ainda por cima com o companheiro ideal – é quase como acertar aqueles seis numerozinhos da megaloteria nacional. Ou seja, algo raro, mas não impossível de acontecer. É que depois de encontrar a viagem certa, você – todo eufórico – avança duas casas e começa a procurar a… cama certa. A busca pelo hotel, albergue ou pousada que mais se adapta ao seu orçamento – e aos seus critérios de chatice – seguramente vai revelar uma etapa constrangedora do seu sonho: não existe hospedagem perfeita. Simples. É que invariavelmente queremos pagar por uma cama fora de casa menos do que vale o nosso próprio colchão. Mas não abrimos mão das benesses que ele nos traz.

Certo, você é um tremendo pé-quente e já encontrou a viagem e a cama inquestionáveis. O próximo passo é chegar ao ponto turístico certo. Seguramente você é um viajante que não gosta de clichês e, portanto, vai querer visitar lugares com poucos turistas. Afinal, turista são sempre os outros, nunca você! O detalhe – lamento informar – que só pelo fato de ter feito sua malinha, reservado seu hotel e se deslocado da sua casa já faz com que se transforme num deles, involuntariamente. Querer fugir dessa condição converte, na hora, seu status: de agoniado “turista”  você passar a ser  um bem resolvido “babaca”.

Por tudo isso – e outras variáveis –  é dificil achar a viagem certa. Se tudo sair dentro da mais perfeita lógica você não vai ter nenhuma história para contar, requisito necessário para o passeio ser fechado em alta resolução. Isso não significa se embrenhar em rotas incompatíveis com sua realidade, muito menos deixar de planejar muito bem suas férias. Cabe a você compreender que viagens são seres incompletos que só se satisfazem quando você efetivamente faz parte dela! E isso independe se ela está certa ou errada.

Foto: David Ruiz

Share
quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Como diferenciar uma hospedagem simples da pobre de espírito

Conto nos dedos de meia mão quantas vezes pude passar alguns dias num hotel de categoria superior. Minha especialidade é a hospedagem simples, a pousada rústica, o hotelzinho despojado, o albergue fuleiro ou a estância jaguara. Sempre trago boas lembranças. Deprimente e traumático é quando caio num lugar pobre de espírito.

A hospedagem pobre de espírito tem alma tacanha. Para ela, atendimento, missão e valores são coisas de estudante de marketing desocupado. Enquanto as pousadas simples oferecem um carinhoso chá de capim limão no meio da tarde, a pobre de espírito disponibiliza papel higiênico lixinha nos banheiros. Quase sempre desinfetados com o alarmante Pinho Sol, é certo.

Em nome do baixo custo, quem trabalha ou gerencia a hospedagem pobre de espírito confunde contenção de despesas com desmazelo e falta de dignidade. Em vez de investir em lençóis brancos de algodão – embora sejam um pouco mais caros podem durar uma vida  – jogam os hóspedes em panos piniquentos de florzinha , cheios de bolinhas com a desculpa esfarrapada de que são mais baratos. Sim, até são. Só que a falta de visão não deixa o empresário desinteressado perceber que isso vai custar, mais tarde, a própria biografia da empresa.

Delicadezas não custam quase nada, quando não, saem de graça. E isso varia do sorriso disposto a um par de balinhas de hortelã oferecido no check-out. Mas a hospedagem pobre de espírito é melancólica por natureza. Fico desacorçoada quando encontro um “café da manhã incluído na diária” como se fosse um favor do estabelecimento. Leite cheio de nata, café aguado, pães amanhecidos e, pior, uma apresentação deplorável com margarina e geléias lambuzadas em potinhos plásticos velhos! A hospedagem simples, ao contrário, tem por essência cuidar, zelar pelo bem-estar e acolher com delicadeza. E isso inclui oferecer, além de um básico e decente café da manhã, uma caseira e cheirosa torta de banana para acompanhar – por exemplo.

O hoteleiro pobre de espírito insiste no baixo padrão do seu negócio porque acredita que a simplicidade está associada ao desprezo pelo outro. Ele não se importa em agradar. Acha que uma cama e um chuveiro são suficientes porque cobra pouco. Concordo que hospedagens econômicas são desprovidas de luxos e de certos serviços. Mas quanto custaria ao empreendimento imprimir simpáticas mensagens de boas-vindas e deixar sobre sua cama ao lado de um chocolatinho regional? Por certo, só a mensagem já produziria uma sensação reconfortante ao hóspede.

A hospedagem pobre de espírito tem um agravante: não gosta de crianças, apesar de aceitá-las como “cortesia”. Se você desemboca num lugar desses com seus bacuris pode estar certo de que, se não for mal-tratado, muito provavelmente não será bem-vindo.  Não há pretexto – nem baixo custo – que justifique tanta animosidade. Já vi pousada pequena, módica e sem infra-estrutura para os pequenos oferecer de bom grado um balão colorido quando a garotada chega. Assim, simples e suficiente.

É possível diferenciar uma hospedagem simples da pobre de espírito já no primeiro dia. Na pobre de espírito o recepcionista está jururu e tem cara de poucos amigos. Ele não atende ou recebe você, apenas preenche uma ficha com seus dados. A tia da limpeza – seres simpáticos e comunicativos de nascença – fica sorumbática em ambientes como esse. Num encontro pelo corredor, ela não lança um “bom dia”, mas “fia, cuidado com o carpete”. Ainda tem isso. Nem toda hospedagem com carpete é pobre de espírito. Mas toda acomodação pobre de espírito vai ter alguma ala com carpete. :roll:

Foto: Matraca’s Image Bank

Share
quarta-feira, 06 de outubro de 2010

Não precisa ser rico. Basta ser viajado!

Tenho mania de colecionar certificados e diplomas. Deve ser algum complexo de inferioridade ou medo de ficar – ou parecer – burra. Não que certificados e diplomas deixem a gente mais inteligente, mas estudar e conhecer nunca teve nenhuma contra-indicação.

O fato de estudar (e isso pode incluir apenas ler um bom livro ou assistir a um bom filme) só me torna uma pessoa melhor: mais centrada nos meus propósitos, voltada aos meus projetos e menos preocupada com a vida dos outros. Até que no meio dessas histórias e cursos eu resolvi começar a viajar.

Aos 14 anos fiz uma excursão com os amigos do colégio. Fui para a Serra Gaúcha. Conheci em uma semaninha Garibaldi, Bento Gonçalves, Canela, Gramado, vinícolas e um dos melhores chocolates do Brasil. Naqueles sete dias aprendi tanta coisa, vi tanta gente, conheci tanta história, tantos personagens… que matutei: quando eu crescer quero ser VIAJANTE!

Mas resolvi ser jornalista e a coisa degringolou de vez. Comecei a ter más companhias e, com outra jornalista, fiz minha primeira viagem para a Europa, depois para o Oriente Médio, África e outras tantas pelo Brasil.  Até que um dia, discutindo sobre antropologia – tema que domino lhufas – com um grupo de amigos, um deles lança: pergunta para a Silvinha, ela é viajada! :roll:

Foi aí que me dei conta: ser viajada nos inclui naquele seleto grupo de pessoas que todo mundo acha que pode opinar sobre história, política, museus, astronomia, moda, horóscopo e até antropologia!!!

Acontece que viajar não nos dá esse passaporte para o mundo do conhecimento, assim, de bandeja. Vai conhecer Manaus? Tem de ler sobre o ciclo da borracha. Gostaria de ver de perto o Alhambra, em Granada? Entenda o que foi o domínio árabe na Espanha. Quer ir para Blumenau? É recomendável buscar alguma informação sobre os fluxos migratórios do sul. Está interessado na Rota do Vinho chilena? Aprenda sobre taninos.

É claro, os viajados e as viajadas não estão habilitados a sair dando opinião sobre tudo ou qualquer coisa. Principalmente aqueles que viajam só em excursão, nunca pegam um metrô, não visitam as feiras livres, nem se interessam pelos personagens do lugar. Mas ainda que seja um título poético, o de viajada é o meu preferido. Afinal, não precisa nem ser rico para ter um.

Foto: Matraca’s Image Bank

————-

Texto originalmente publicado na minha coluna “Viagens Econômicas e Inteligentes”, que sai no portal Descubra Brasil.
Share
terça-feira, 11 de maio de 2010

O andar da gastronomia regional

Aprendo a viajar melhor ano após ano. Descobri que não preciso derriçar uma capital em dois dias – nem a Europa em 30. Avancei duas casas quando me dei conta de que não é mandatório ficar à base de pão, água (de torneira) e Mc Donald’s para chamar uma viagem de muquirana. Porque pobre-pé-rapado é quem sai de férias e não se dá o direito de ser feliz. Seja gastando muito ou pouco.

Meu desafio tem sido identificar o que realmente é importante para mim quando faço as malas. Mais do que visitar pontos turísticos interessantes – muitas vezes chamados erroneamente de obrigatórios na bíblia de alguns viajantes – eu busco experiências gastronômicas regionais. Se eu tirar uma foto no centro histórico de Olinda, por exemplo, vou poder me lembrar por muito tempo do resultado. Mas não do processo. Fica a lembrança. Nem sempre a consequência.

Já observar o preparo de uma tapioca chamejante, recheada cuidadosamente com queijo coalho e coco ralado e, em seguida, saborear o quitute – que alterna um leve crocante com recheio cremoso – marca para sempre sua história de viagem. Concordo: às vezes, o efeito da experiência não só provoca uma “consequência” na sua biografia, mas se torna quase uma sequela. Na primeira e única vez que provei uma buchada de bode, há poucas semanas em Maceió, tive um revertério. Passei o dia seguinte – forçada – comendo maçã.

É que experiências gastronômicas regionais exigem um caminho, um método, alguma técnica, um pouco de ginga. Arte. Principalmente reverência. Pode ser num restaurante sofisticado ou num bar pé-sujo. No café do museu ou à beira-mar. Vai do milho cozido ao caldinho de sururu, da moqueca capixaba ao acarajé baiano, do sanduíche de tucumã manauara ao bolinho de macaxeira potiguar, do sarapatel ao barreado paranaense, do arroz com pequi goiano ao pão de queijo mineiro. Sem esquecer a pizza de coração gaúcha! Tão tradicional quanto as ostras de Floripa.

Falamos de uma espécie de patrimônio imaterial. Uma relação delicada entre viajante e destino. O que eu chamo, meramente, de profunda amizade: ambos – cada um a seu modo – se afinam, modestos e despretensiosos, para recriar as condições adequadas que ajudam a perpetuar o sabor de cada lugar.

Foto: Bolinho de Macaxeira, em Natal. (Matraca’s Image Bank)

——————————

Texto originalmente publicado na minha coluna “Viagens Econômicas e Inteligentes”, que sai toda semana no portal Descubra Brasil.

Share
Páginas:1234Último »
MATRAQUEANDO - Viagens e Comidinhas | Por Sílvia Oliveira | Jornalista | Curitiba, BR

Todos os direitos reservados. 2006-2012 © VoucherPress | Agência de Notícias.
Está proibida a reprodução, sem limitações, de textos, fotos ou qualquer outro material contido neste site, mesmo que citada a fonte.
Caso queira adquirir nossas reportagens, entre em contato.

Desenvolvido por Dintstudio
Content Protected Using Blog Protector By: PcDrome.