Crônicas

Qual é a viagem certa para você?

Não existe. Leu bem: não há uma viagem certa para um determinado perfil de viajante. O que existem são pessoas  mais – ou menos – adequadas para determinadas viagens. Quem faz o passeio é o turista. Não o contrário. Não basta perguntar se você prefere praia ou montanha, vinho ou cerveja. O que estabelece o índice de sucesso das suas férias são suas expectativas, grau de tolerância, experiências anteriores e capacidade de adaptação.

Ninguém pode decretar se o Alasca é um bom passeio para levar seu bebê de dois meses. Nem mesmo se é o destino mais sensato para ir com seu namorado(a). Muito menos temos como descobrir se você deve ir, de fato, acompanhado. Viajar sozinho, aliás, é bem mais fácil do que parece. Somos donos do nosso próprio itinerário. Fazemos e desfazemos roteiros a nosso bel-prazer, sem avisar ninguém – com risco zero de desagradar o outro.

Já viajar em dupla ou grupo requer um certo espírito de equipe. Se você pensa que está preparado para enfrentar o mal-humor matinal do seu parceiro saiba: todas as nossas características – que vão do comportamento banal ao transtorno obsessivo – costumam se agigantar fora de casa. É a Síndrome do Momento-Patrão, à qual somos submetidos sempre que taxistas, garçons e camareiras passam a ser nossos pseudo-funcionários.

Identificar um roteiro infalível – e ainda por cima com o companheiro ideal – é quase como acertar aqueles seis numerozinhos da megaloteria nacional. Ou seja, algo raro, mas não impossível de acontecer. É que depois de encontrar a viagem certa, você – todo eufórico – avança duas casas e começa a procurar a… cama certa. A busca pelo hotel, albergue ou pousada que mais se adapta ao seu orçamento – e aos seus critérios de chatice – seguramente vai revelar uma etapa constrangedora do seu sonho: não existe hospedagem perfeita. Simples. É que invariavelmente queremos pagar por uma cama fora de casa menos do que vale o nosso próprio colchão. Mas não abrimos mão das benesses que ele nos traz.

Certo, você é um tremendo pé-quente e já encontrou a viagem e a cama inquestionáveis. O próximo passo é chegar ao ponto turístico certo. Seguramente você é um viajante que não gosta de clichês e, portanto, vai querer visitar lugares com poucos turistas. Afinal, turista são sempre os outros, nunca você! O detalhe – lamento informar – que só pelo fato de ter feito sua malinha, reservado seu hotel e se deslocado da sua casa já faz com que se transforme num deles, involuntariamente. Querer fugir dessa condição converte, na hora, seu status: de agoniado “turista”  você passar a ser  um bem resolvido “babaca”.

Por tudo isso – e outras variáveis –  é dificil achar a viagem certa. Se tudo sair dentro da mais perfeita lógica você não vai ter nenhuma história para contar, requisito necessário para o passeio ser fechado em alta resolução. Isso não significa se embrenhar em rotas incompatíveis com sua realidade, muito menos deixar de planejar muito bem suas férias. Cabe a você compreender que viagens são seres incompletos que só se satisfazem quando você efetivamente faz parte dela! E isso independe se ela está certa ou errada.

Foto: David Ruiz

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Como diferenciar uma hospedagem simples da pobre de espírito

Conto nos dedos de meia mão quantas vezes pude passar alguns dias num hotel de categoria superior. Minha especialidade é a hospedagem simples, a pousada rústica, o hotelzinho despojado, o albergue fuleiro ou a estância jaguara. Sempre trago boas lembranças. Deprimente e traumático é quando caio num lugar pobre de espírito.

A hospedagem pobre de espírito tem alma tacanha. Para ela, atendimento, missão e valores são coisas de estudante de marketing desocupado. Enquanto as pousadas simples oferecem um carinhoso chá de capim limão no meio da tarde, a pobre de espírito disponibiliza papel higiênico lixinha nos banheiros. Quase sempre desinfetados com o alarmante Pinho Sol, é certo.

Em nome do baixo custo, quem trabalha ou gerencia a hospedagem pobre de espírito confunde contenção de despesas com desmazelo e falta de dignidade. Em vez de investir em lençóis brancos de algodão – embora sejam um pouco mais caros podem durar uma vida  – jogam os hóspedes em panos piniquentos de florzinha , cheios de bolinhas com a desculpa esfarrapada de que são mais baratos. Sim, até são. Só que a falta de visão não deixa o empresário desinteressado perceber que isso vai custar, mais tarde, a própria biografia da empresa.

Delicadezas não custam quase nada, quando não, saem de graça. E isso varia do sorriso disposto a um par de balinhas de hortelã oferecido no check-out. Mas a hospedagem pobre de espírito é melancólica por natureza. Fico desacorçoada quando encontro um “café da manhã incluído na diária” como se fosse um favor do estabelecimento. Leite cheio de nata, café aguado, pães amanhecidos e, pior, uma apresentação deplorável com margarina e geléias lambuzadas em potinhos plásticos velhos! A hospedagem simples, ao contrário, tem por essência cuidar, zelar pelo bem-estar e acolher com delicadeza. E isso inclui oferecer, além de um básico e decente café da manhã, uma caseira e cheirosa torta de banana para acompanhar – por exemplo.

O hoteleiro pobre de espírito insiste no baixo padrão do seu negócio porque acredita que a simplicidade está associada ao desprezo pelo outro. Ele não se importa em agradar. Acha que uma cama e um chuveiro são suficientes porque cobra pouco. Concordo que hospedagens econômicas são desprovidas de luxos e de certos serviços. Mas quanto custaria ao empreendimento imprimir simpáticas mensagens de boas-vindas e deixar sobre sua cama ao lado de um chocolatinho regional? Por certo, só a mensagem já produziria uma sensação reconfortante ao hóspede.

A hospedagem pobre de espírito tem um agravante: não gosta de crianças, apesar de aceitá-las como “cortesia”. Se você desemboca num lugar desses com seus bacuris pode estar certo de que, se não for mal-tratado, muito provavelmente não será bem-vindo.  Não há pretexto – nem baixo custo – que justifique tanta animosidade. Já vi pousada pequena, módica e sem infra-estrutura para os pequenos oferecer de bom grado um balão colorido quando a garotada chega. Assim, simples e suficiente.

É possível diferenciar uma hospedagem simples da pobre de espírito já no primeiro dia. Na pobre de espírito o recepcionista está jururu e tem cara de poucos amigos. Ele não atende ou recebe você, apenas preenche uma ficha com seus dados. A tia da limpeza – seres simpáticos e comunicativos de nascença – fica sorumbática em ambientes como esse. Num encontro pelo corredor, ela não lança um “bom dia”, mas “fia, cuidado com o carpete”. Ainda tem isso. Nem toda hospedagem com carpete é pobre de espírito. Mas toda acomodação pobre de espírito vai ter alguma ala com carpete. :roll:

Foto: Matraca’s Image Bank

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Não precisa ser rico. Basta ser viajado!

Tenho mania de colecionar certificados e diplomas. Deve ser algum complexo de inferioridade ou medo de ficar – ou parecer – burra. Não que certificados e diplomas deixem a gente mais inteligente, mas estudar e conhecer nunca teve nenhuma contra-indicação.

O fato de estudar (e isso pode incluir apenas ler um bom livro ou assistir a um bom filme) só me torna uma pessoa melhor: mais centrada nos meus propósitos, voltada aos meus projetos e menos preocupada com a vida dos outros. Até que no meio dessas histórias e cursos eu resolvi começar a viajar.

Aos 14 anos fiz uma excursão com os amigos do colégio. Fui para a Serra Gaúcha. Conheci em uma semaninha Garibaldi, Bento Gonçalves, Canela, Gramado, vinícolas e um dos melhores chocolates do Brasil. Naqueles sete dias aprendi tanta coisa, vi tanta gente, conheci tanta história, tantos personagens… que matutei: quando eu crescer quero ser VIAJANTE!

Mas resolvi ser jornalista e a coisa degringolou de vez. Comecei a ter más companhias e, com outra jornalista, fiz minha primeira viagem para a Europa, depois para o Oriente Médio, África e outras tantas pelo Brasil.  Até que um dia, discutindo sobre antropologia – tema que domino lhufas – com um grupo de amigos, um deles lança: pergunta para a Silvinha, ela é viajada! :roll:

Foi aí que me dei conta: ser viajada nos inclui naquele seleto grupo de pessoas que todo mundo acha que pode opinar sobre história, política, museus, astronomia, moda, horóscopo e até antropologia!!!

Acontece que viajar não nos dá esse passaporte para o mundo do conhecimento, assim, de bandeja. Vai conhecer Manaus? Tem de ler sobre o ciclo da borracha. Gostaria de ver de perto o Alhambra, em Granada? Entenda o que foi o domínio árabe na Espanha. Quer ir para Blumenau? É recomendável buscar alguma informação sobre os fluxos migratórios do sul. Está interessado na Rota do Vinho chilena? Aprenda sobre taninos.

É claro, os viajados e as viajadas não estão habilitados a sair dando opinião sobre tudo ou qualquer coisa. Principalmente aqueles que viajam só em excursão, nunca pegam um metrô, não visitam as feiras livres, nem se interessam pelos personagens do lugar. Mas ainda que seja um título poético, o de viajada é o meu preferido. Afinal, não precisa nem ser rico para ter um.

Foto: Matraca’s Image Bank

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Texto originalmente publicado na minha coluna “Viagens Econômicas e Inteligentes”, que sai no portal Descubra Brasil.
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O andar da gastronomia regional

Aprendo a viajar melhor ano após ano. Descobri que não preciso derriçar uma capital em dois dias – nem a Europa em 30. Avancei duas casas quando me dei conta de que não é mandatório ficar à base de pão, água (de torneira) e Mc Donald’s para chamar uma viagem de muquirana. Porque pobre-pé-rapado é quem sai de férias e não se dá o direito de ser feliz. Seja gastando muito ou pouco.

Meu desafio tem sido identificar o que realmente é importante para mim quando faço as malas. Mais do que visitar pontos turísticos interessantes – muitas vezes chamados erroneamente de obrigatórios na bíblia de alguns viajantes – eu busco experiências gastronômicas regionais. Se eu tirar uma foto no centro histórico de Olinda, por exemplo, vou poder me lembrar por muito tempo do resultado. Mas não do processo. Fica a lembrança. Nem sempre a consequência.

Já observar o preparo de uma tapioca chamejante, recheada cuidadosamente com queijo coalho e coco ralado e, em seguida, saborear o quitute – que alterna um leve crocante com recheio cremoso – marca para sempre sua história de viagem. Concordo: às vezes, o efeito da experiência não só provoca uma “consequência” na sua biografia, mas se torna quase uma sequela. Na primeira e única vez que provei uma buchada de bode, há poucas semanas em Maceió, tive um revertério. Passei o dia seguinte – forçada – comendo maçã.

É que experiências gastronômicas regionais exigem um caminho, um método, alguma técnica, um pouco de ginga. Arte. Principalmente reverência. Pode ser num restaurante sofisticado ou num bar pé-sujo. No café do museu ou à beira-mar. Vai do milho cozido ao caldinho de sururu, da moqueca capixaba ao acarajé baiano, do sanduíche de tucumã manauara ao bolinho de macaxeira potiguar, do sarapatel ao barreado paranaense, do arroz com pequi goiano ao pão de queijo mineiro. Sem esquecer a pizza de coração gaúcha! Tão tradicional quanto as ostras de Floripa.

Falamos de uma espécie de patrimônio imaterial. Uma relação delicada entre viajante e destino. O que eu chamo, meramente, de profunda amizade: ambos – cada um a seu modo – se afinam, modestos e despretensiosos, para recriar as condições adequadas que ajudam a perpetuar o sabor de cada lugar.

Foto: Bolinho de Macaxeira, em Natal. (Matraca’s Image Bank)

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Texto originalmente publicado na minha coluna “Viagens Econômicas e Inteligentes”, que sai toda semana no portal Descubra Brasil.

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A viagem de volta

De fato. Não existe lugar tão acolhedor quanto a nossa casa. Mesmo assim, o retorno não deixa de ser o momento mais ignorante do passeio. A volta é um choque anafilático.

Quase sempre vem junto com uma depressão – ou gripe – que se agrava quando você confirma todos os voos finais. Tudo conspira contra. Minha mãe provavelmente utilizaria a expressão estou na fossa para descrever o quadro.

Na ida, se você vai de São Paulo a Berlim, com escala em Londres, trata-se de conexão internacional. Na volta, o mesmo trajeto passa a ser chamado de pinga-pinga. Na ida, a classe econômica é quase uma executiva. Parece ter mais espaço, o banco reclina mais e as aeromoças são mais simpáticas. Até a comida do avião é maneira.

Já na volta parece que estamos em um teco-teco, sem classe nenhuma e toda pergunta dos comissários tipo “água ou café?” chega a ser uma grosseria. Se no começo da odisséia eu era a desbravadora de mundos agora sou um ser secundário, sem dinheiro, reduzido à insignificante figura de um viajante voltando para casa.

Ao embarcar para o novo destino o tio da alfândega é nosso camarada. Conhecido de muitos check-ins. A gente só mostra o passaporte e escuta a sonora sinfonia “boa viagem!”. Na volta, ele se transforma no homem do saco que, com certeza, vai revistar minha mala e perguntar em tom ríspido o que vou fazer com tanto azeite de oliva.

A volta é uma espécie de pelourinho.  É como queimar a língua. Prender o dedo na porta. Bater o cotovelo na quina. É como nariz entupido. Torcicolo. O fim de um caso de amor. Dói. Aaah, mas como é bom abrir a porta de casa. O alento de que a gente precisa para planejar a próxima… ida.

Texto originalmente publicado na minha coluna “Viagens Econômicas e Inteligentes”,  que sai toda semana no portal Descubra Brasil.

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Ói, ói o trem…

O Brasil não tem tanta tradição em viagens de trem. Pelo menos não como na Europa, onde andar sobre trilhos é mais do que um meio de transporte – é uma questão cultural. No nosso caso, falta uma malha ferroviária que cubra todo o país ou que, pelo menos, ligue centros importantes. A falta de tradição em trens de passageiros acaba ofuscando lindos trajetos que podemos fazer contemplando a paisagem, em meio a serras e rios – ao som de um lúcido piuiii.

Talvez seja por isso que qualquer passeio de maria-fumaça é um encanto à parte nos destinos que oferecem essa opção. Nem sempre é um tour barato, mas está muito longe de ser impraticável. O Brasil está cheio deles, cada um com características próprias. Escolha aquele que mais combina com você e inclua no seu repertório ói, ói o trem

ESPÍRITO SANTO

O Trem das Montanhas Capixabas veio reacender uma zona potencialmente turística do Espírito Santo. A rota – inaugurada há três meses – começa em Viana (que está a 22 quilômetros da capital, Vitória), passa por Domingos Martins, Marechal Floriano até chegar à estação de Araguaia. São 2h40 de viagem. Uma generosa paisagem da serra, do mar e da Mata Atlântica – com pontes, túneis e cachoeiras – fazem do passeio algo imperdível para quem vai visitar o estado. O ticket custa R$ 86,00 (avulso) ou R$ 122,00 (comprando ida e volta no mesmo dia). Os capixabas têm desconto de 15%.

MINAS GERAIS

De Ouro Preto até Mariana, a Maria Fumaça percorre a serra durante uma hora. Mas antes mesmo de embarcar, é possível aprender um pouco mais sobre a história das ferrovias durante o Ciclo do Ouro em um das salas da estação. Dica: sente-se do lado direito para ver a maioria das atrações e, de preferência, no último vagão para pegar a melhor foto do trem na curva. O passeio custa R$ 30,00 (ida e volta) ou R$ 18,00 só a ida. Para voltar de ônibus são R$ 2,20. De sexta a domingo, saídas às 11h e às 16h. Não tem site. Mais informações: 31/ 3551.7705.

PANTANAL

Depois de 20 anos parado, o Trem do Pantanal voltou a transportar passageiros no ano passado. A viagem de 220 quilômetros – entre Campo Grande e Miranda – leva cerca de 11 horas. Desse tempo, desconte duas horas e meia para o almoço em Aquiduana. Há quatro categorias de vagões: econômica, turística, executiva e camarote. Há também um vagão-bar. Por enquanto, só funciona nos fins de semana e feriados. Custa R$ 39,00 por pessoa na econômica ou R$ 800,00 no camarote – valor dividido pelos oito lugares.

PARANÁ

A Estrada de Ferro Curitiba-Paranaguá, inaugurada no século 19, tem 150 quilômetros e percorre um lindo trecho da Serra do Mar – um pedaço do Paraná reconhecido pela UNESCO como Reserva da Biosfera. O passeio liga Curitiba-Morretes-Paranaguá. Na categoria econômica são R$ 39,00 e na classe executiva a passagem está R$ 66,00. Às segundas feiras, pessoas com mais de 60 anos ganham 50% de desconto – promoção válida nas classes turística, executiva e litorina, exceto feriados.

RIO GRANDE DO SUL

Na Serra Gaúcha a boa-praça Maria Fumaça vai de Bento Gonçalves a Carlos Barbosa, passando por Garibaldi. A locomotiva – recuperada de um depósito de sucata ferroviária – faz o trajeto de 23 quilômetros em 1h30min. O passeio é animado por músicos e oferece degustação de vinho e champanhe na parada em Garibaldi.  Mais de 60 mil turistas fazem essa viagem a cada ano. Saídas quartas e sábados, às 9h e às 14h. A passagem custa R$ 55,00 (inclui ingresso para o show Epopeia Italiana). Convém reservar. Não tem site. Mais informações: 54/3455.2788.

SÃO PAULO

Em Campos do Jordão , saindo da Vila Capivari, é possível ir de trem até Santo Antônio do Pinhal. Um passeio simples, que dura 2h30. O trecho mais bonito é o do bairro Alto do Lajeado, a 1740 metros de altitude. Mas é melhor se o dia estiver limpo. Em Santo Antônio do Pinhal, a graça é provar o bolinho de bacalhau da lanchonete da estação. Em julho, alta temporada na cidade, há saídas em diversos horários, a partir das 10h (durante a semana) e das 9h30 (sábados e domingos). O passeio custa R$ 35,00 – ida e volta.

Foto: Raul Mattar

Texto originalmente publicado na minha coluna “Viagens Econômicas e Inteligentes”,  que sai toda semana no portal Descubra Brasil.

O Brasil não tem tanta tradição em viagens de trem. Pelo menos não como na Europa, onde andar sobre trilhos é mais do que um meio de transporte – é uma questão cultural. No nosso caso, falta uma malha ferroviária que cubra todo o país ou que, pelo menos, ligue centros importantes. A falta de tradição em trens de passageiros acaba ofuscando lindos trajetos que podemos fazer contemplando a paisagem, em meio a serras e rios – ao som de um lúcido piuiii.

Talvez seja por isso que qualquer passeio de maria-fumaça é um encanto à parte nos destinos que oferecem essa opção. Nem sempre é um tour barato, mas está muito longe de ser impraticável. O Brasil está cheio deles, cada um com características próprias. Escolha aquele que mais combina com você e inclua no seu repertório ói, ói o trem

ESPÍRITO SANTO

O Trem das Montanhas Capixabas (www.tremdasmontanhascapixabas.com.br) veio reacender uma zona potencialmente turística do Espírito Santo. A rota – inaugurada há três meses – começa em Viana (que está a 22 quilômetros da capital, Vitória), passa por Domingos Martins, Marechal Floriano até chegar à estação de Araguaia. São 2h40 de viagem. Uma generosa paisagem da serra, do mar e da Mata Atlântica – com pontes, túneis e cachoeiras – fazem do passeio algo imperdível para quem vai visitar o estado. O ticket custa R$ 86,00 (avulso) ou R$ 122,00 (comprando ida e volta no mesmo dia). Os capixabas têm desconto de 15%.

MINAS GERAIS

De Ouro Preto até Mariana, a Maria Fumaça percorre a serra durante uma hora. Mas antes mesmo de embarcar, é possível aprender um pouco mais sobre a história das ferrovias durante o Ciclo do Ouro em um das salas da estação. Dica: sente-se do lado direito para ver a maioria das atrações e, de preferência, no último vagão para pegar a melhor foto do trem na curva. O passeio custa R$ 30,00 (ida e volta) ou R$ 18,00 só a ida. Para voltar de ônibus são R$ 2,20. De sexta a domingo, saídas às 11h e às 16h. Não tem site. Mais informações: 31/ 3551.7705.

PANTANAL

Depois de 20 anos parado, o Trem do Pantanal (www.pantanalexpress.com) voltou a transportar passageiros no ano passado. A viagem de 220 quilômetros – entre Campo Grande e Miranda – leva cerca de 11 horas. Desse tempo, desconte duas horas e meia para o almoço em Aquiduana. Há quatro categorias de vagões: econômica, turística, executiva e camarote. Há também um vagão-bar. Por enquanto, só funciona nos fins de semana e feriados. Custa R$ 39,00 por pessoa na econômica ou R$ 800,00 no camarote – valor dividido pelos oito lugares.

PARANÁ

A Estrada de Ferro Curitiba-Paranaguá (www.serraverdeexpress.com.br), inaugurada no século 19, tem 150 quilômetros e percorre um lindo trecho da Serra do Mar – um pedaço do Paraná reconhecido pela UNESCO como Reserva da Biosfera. O passeio liga Curitiba-Morretes-Paranaguá. Na categoria econômica são R$ 39,00 e na classe executiva a passagem está R$ 66,00. Às segundas feiras, pessoas com mais de 60 anos ganham 50% de desconto – promoção válida nas classes turística, executiva e litorina, exceto feriados.

RIO GRANDE DO SUL

Na Serra Gaúcha a boa-praça Maria Fumaça vai de Bento Gonçalves a Carlos Barbosa, passando por Garibaldi. A locomotiva – recuperada de um depósito de sucata ferroviária – faz o trajeto de 23 quilômetros em 1h30min. O passeio é animado por músicos e oferece degustação de vinho e champanhe na parada em Garibaldi. Mais de 60 mil turistas fazem essa viagem a cada ano. Saídas quartas e sábados, às 9h e às 14h. A passagem custa R$ 55,00 (inclui ingresso para o show Epopeia Italiana). Convém reservar. Não tem site. Mais informações: 54/3455.2788.

SÃO PAULO

Em Campos do Jordão (www.camposdojordao.com.br), saindo da Vila Capivari, é possível ir de trem até Santo Antônio do Pinhal. Um passeio simples, que dura 2h30. O trecho mais bonito é o do bairro Alto do Lajeado, a 1740 metros de altitude. Mas é melhor se o dia estiver limpo. Em Santo Antônio do Pinhal, a graça é provar o bolinho de bacalhau da lanchonete da estação. Em julho, alta temporada na cidade, há saídas em diversos horários, a partir das 10h (durante a semana) e das 9h30 (sábados e domingos). O passeio custa R$ 35,00 – ida e volta.

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Os mercadões do Brasil

Todo mercadão tem uma boa estória para contar. Apesar de não ser mais um local de pechincha como antigamente, geralmente a arquitetura já vale a visita. Quase sempre instalados em construções antigas, os mercadões acabaram virando grifes nas cidades. Até existem alguns mais fajutos, jecas, muquifos ou fuleiros do que outros. Mas eles, assim como as feiras, deveriam ser o ponto de partida da sua incursão aonde quer que vá. É que eles oferecem um desfile único de cheiros, sabores, roupas e pessoas – incluindo aí gente egocêntrica e esquisita – num inusitado tour sócio-antropológico.

No Mercadão de Curitiba, por exemplo,  um olhar desavisado não vai achar nada diferente. Já uma vista disposta perceberá o mercadão da capital paranaense como único. Em vez de ficar babando nas bancas bem montadas dê uma olhadinha para cima. Lá estão elas. Placas enormes penduradas no teto com poesias de Paulo Lemenski, Helena Kolody, Alice Ruiz – entre outros poetas e escritores do estado.

Já o Mercado Municipal Adolpho Lisboa de Manaus – que atualmente passa por reformas – foi construído nos tempos áureos do Ciclo da Borracha. É todo em art nouveau, bem rococó. Foi inspirado no extinto mercado Les Halles, de Paris. Um produto vendido a rodo por aqui é o tucupi: um molho amarelo extraído da mandioca brava usado em diversos pratos da Amazônia. O armazenamento é bem informal (nesse caso, vou resmungar: informal demais para o meu gosto). O líquido fica exposto em tonéis – para você levar a granel quanto desejar ou já vem em embalagens “próprias” de garrafas pet.

Tradição, cultura popular e religião fazem do Mercado Central de Belo Horizonte um dos lugares mais agradáveis da cidade. Desde comida mineira passando por ingredientes típicos e artesanato regional, é aquele tipo de lugar onde a gente acha que encontra de tudo – ou quase tudo. O Mercado Municipal Antônio Valente de Campo Grande tem origem numa feira livre que até os anos 50 ocupou uma grande área margeando os trilhos da Noroeste entre a Avenida Afonso Pena e a Rua 7 de Setembro. É um marco na capital sul-mato-grossense e principal ponto de encontro aos domingos de manhã.

O tradicionalésimo sanduíche de mortadela do Bar do Mané – no Mercado Municipal de São Paulo custa R$ 9,00.  A “iguaria” é a paixão dos paulistanos. Está para São Paulo assim como o pierogui (um tipo de pastel polonês) para os curitibanos. Mulheres de salto e homens de gravata ali, paradinhos, em pé, comendo o sandubão na hora do almoço. Vem com 300 gramas de mortadela e pão fresquinho. Quando pedi o meu, não aguentei comer o “tira-gosto” inteiro – por isso – dividido por dois, fica R$ 4,50 para cada. O pacotinho de Estomazil efervescente custa R$ 0,80. Você ainda sai no lucro.

Foto: Mercado Municipal de Curitiba (Raul Mattar)

Texto originalmente publicado na minha coluna “Viagens Econômicas e Inteligentes”,  que sai toda semana no portal Descubra Brasil.

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