Silvia Oliveira

Crônicas

sábado, 28 de julho de 2007

Duas visões de um mundo só

Há dez anos fiz minha primeira viagem à Europa. Foram 30 dias, 7 países, muitos Mc Donalds, albergues da juventude e algumas das melhores histórias que trago nos meus alfarrábios até hoje. Tinha só 24 anos, quase nada de dinheiro, um guia Frommer´s debaixo do braço e muito entusiasmo. Nem sonhava com as companhias áreas low cost. Comprei naquela época – o já caríssimo – passe de trem. Houve trecho que durou 25 horas de viagem. Internet era coisa de grego. Chegávamos a todos os lugares sem reserva de hotel. Só minha amiga e eu. Primeira viagem internacional. Voei VASP. (Verdade!) Sou do tempo em que a VASP não só existia como fazia várias rotas internacionais.

Este ano voltei em turma. Meus pais, minha tia, meu marido. 15 dias, 3 países (Espanha, França e Itália), 6 cidades (Madri, Barcelona, Veneza, Florença, Roma e Paris). Fomos aos mesmos lugares que conheci quando eu ainda tinha cabelos pela cintura, apenas dois anos de carreira e o inglês macarrônico do colégio. Deu para perceber que tudo por lá continua igualzinho. Quem mudou fui eu. Mesmo viajando na linha muquirana de sempre, descobri que subi na vida: andei uma ou outra vez de táxi, comi em restaurante decente, só fiquei em hotel com banheiro no quarto e até fiz algumas compras de verdade.

Por outro lado, foi a viagem mais mochileira da tia, do pai e da mãe. Carregaram malas em estação de metrô, se acabaram na salada do Mac Donalds, andaram oito horas por dia para conhecer prédios, ruas e monumentos. Ficaram em alguns hostais (uma estrela acima dos albergues), tomaram café da manhã na padaria da esquina e meu pai até aprendeu a pechinchar, em INGLÊS! E a principal ida ao supermercado em Paris, por exemplo, foi liderada pela tia Esperança. Ela, já craque, escolheu pães típicos, embutidos tradicionais, queijos e vinho FRANCÊS! Tudo deliciosamente servido. Na mesinha do quarto.

É isso, mais legal do que viajar é ter família para ir junto! Voilá, trè chic!

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Foto: Canais de Veneza. (Raul Mattar)
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terça-feira, 15 de maio de 2007

Geografia, prazer em conhecer.

A geografia me causa amnésia. Isso, para quem trabalha com jornalismo especializado em turismo, como eu, é – invariavelmente – um vexame. Sempre confundo os estados de Roraima e Rondônia (nunca sei a capital de um ou de outro) e não tenho a menor idéia em que lado ficam as Ilhas Maurício, Seychelles ou Maldivas. Se alguém coloca um mapa-mundi na minha frente eu jamais poderei localizar – talvez apenas apontar remotamente – alguns lugares como Vietnã, Camboja ou Tibet. Nem sei dizer qual o maior rio navegável, o maior em profundidade, o maior em extensão, o maior em… ah, deixa para lá.

Apesar de toda a minha fragilidade no tema – e fazendo toda essa análise – descobri que a coisa que mais aprendo quando viajo é, justamente, geografia.
Agora já sei que aquele rio famoso de Londres é o Tâmisa. Nunca mais vou esquecer que o oceano que banha Acapulco, no México, é o Pacífico. Pois lá foi a primeira vez que vi o sol se por no mar. E para quem não gosta de praia como eu, estou quase uma expert no assunto: já mergulhei no Mor Morto, em Israel. (Mergulhar é modo de dizer, boiei, na verdade). Entendi que é a porção de água com maior concentração de sal do mundo – por isso ninguém afunda – e que é o ponto mais baixo da terra.

Em São Paulo fiquei muda quando soube que a linha imaginária do Trópico de Capricórnio passa bem “dentro” da Catedral da Sé. Em Manaus vi de perto o encontro dos rios Negro e Solimões. Ah, sim, me lembrei: o rio Amazonas é o mais extenso do mundo, com cerca de 6.500 quilômetros. (Confesso, quando o avistei pensei que fosse o Atlântico). Depois de uma visita a Manhuaçu, nunca mais esqueci que a Serra do Caparaó fica em Minas em Gerais. Ao passar dois dias em Brasília me dei conta que a umidade do ar por lá pode chegar a zero! E só mesmo quando fui ao Canyon Guartelá, no Paraná, é que entrou na minha cachola que estava conhecendo o 6° maior canyon do mundo.

Ainda sigo sem saber qual a montanha mais alta, a mais larga, a mais nevada, seja do Brasil, da América Latina ou do mundo. (O Brasil tem picos nevados?) Mas o exercício acima me fez sentir menos culpada por não saber que a Chapada das Mesas, ficava no Maranhão, ou melhor, que ela simplesmente existia.

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terça-feira, 08 de maio de 2007

Os 10 mandamentos do viajante

1. Amarás teu destino como se tua casa fosse.

2. Honrarás a fauna e a flora do lugar visitado, para que teus dias se prolonguem na terra.

3. Não comprarás berimbau na Bahia, pois nunca terás onde colocá-lo.

4. Não matarás o tiozinho que carrega tuas malas, os justos merecem gorjeta.

5. Não jurarás fazer dieta durante uma viagem, porque a balança jamais te perdoará.

6. Não furtarás. Se assim o fizeres verás o sol nascer quadrado em qualquer lugar do mundo.

7. Não levantarás falso testemunho contra o Brasil onde quer que estejas.

8. Não reclamarás em dias de chuva.

9. Não invocarás em vão o nome do Matraqueando cada vez que o ônibus quebrar, o avião atrasar ou o garçom te esquecer.

10. Não cobiçarás a viagem do próximo, nem a sua mala Samsonite de rodinhas, nem os seus vôos em primeira classe, porque dos MUQUIRANAS é o reino dos céus.

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Os sete pecados capitais do turista

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segunda-feira, 19 de março de 2007

Os sete pecados capitais do turista

1. GULA
Turismo gastronômico é uma coisa. Sair comendo tudo e exageradamente o que encontrar pela frente é outra. Pergunte antes se a comida local leva muita pimenta, muita gordura ou muito dendê. Os desarranjos intestinais são o nº 1 da lista de inconvenientes que podem estragar sua viagem. Passar de segunda a sexta comendo moqueca na Bahia é pedir para conhecer o hospital no sábado. Tomando água de coco.

2. LUXÚRIA
Se sua viagem não for aquele cruzeiro para solteiros, não saia à caça desesperadamente. Xavecar é permitido, mas abusar da sua volúpia e devassidão em terras estranhas vai dar um bafafá daqueles. Lembre-se, Sodoma e Gomorra são dois destinos fora de moda. Todo e qualquer lugar tem suas regras. Uma cidade do interior do Ceará, por exemplo, com certeza deve possuir um modus-operandi diferente da capital, Fortaleza. Fique atento.

 3. AVAREZA
Viajar uma vez ou outra na classe-pau-de-arara, vá lá. Mas passar três noites dormindo dentro de um trem europeu para economizar a diária do hotel é fria! Quem dorme em trem, na verdade não dorme e perde o outro dia porque invariavelmente está cansado. Ser mão-de-vaca-muquirana em alguns contextos é necessário. Mas se sua sovinice e mesquinhez passarem dos limites, você se sentirá o viajante mais pobre e humilhado do planeta. Momentos de extravagância devem, sim, fazer parte do seu roteiro.

 4. IRA
Já foi dito no primeiro capítulo deste blog: lugar de mal-humorado é em casa. Toda viagem tem seus imprevistos. E, costumo dizer, todo imprevisto é um teste. Passe pelas provas com dignidade e respeito. Xingar, blasfemar, tratar mal o taxista e brigar com o recepcionista do hotel são atitudes que só vão encaixar você no rol dos mal educados e grosseiros. Seja sempre gentil, fale baixo, por favor e obrigado. Em caso de ser mal tratado busque diretamente o chefe, o gerente ou a supervisão. Mesmo assim, esteja seguro de que o certo é você.

5. SOBERBA
O pior que pode acontecer é viajar com gente que se acha! Sabe aquele tipo matraca (glupt!) que não para de falar, contar, descrever, enumerar – tim tim por tim tim – tudo que já viu, percorreu e conheceu? Compartilhar conhecimento é fundamental, mas ficar exibindo sua inteligência barsiana a cada monumento ou museu visitado é muito chato e desagradável. Contenha-se!

6. PREGUIÇA
Para um turista, este estaria entre os pecados mortais sem chance de perdão. Viagem exige planejamento, pesquisa, leitura e muita disposição. Quem tem preguiça de ler, não gosta de planejar, busca a inércia dos lugares ou a vadiagem dos destinos merece ir direto para o purgatório. Somente um conclave com toda a armada celestial para salvar a alma de um viajante preguiçoso. 

7. INVEJA
Se os outros viajam e você não, a culpa – seguramente – é sua! E não dos outros. O livre arbítrio existe para que VOCÊ decida o que fazer com o seu dinheiro. Se a prioridade na sua vida é ter uma televisão de 42 polegadas, invista nela! Mas não demonstre aflição na prosperidade dos que vivem de malas prontas. Entenda que os turistas profissionais viajam não porque tenham dinheiro, mas porque o patrimônio que eles buscam nenhuma moeda pode comprar.

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quinta-feira, 07 de setembro de 2006

BUENOS AIRES: como se elege um destino

Estados Unidos, Portugal e Argentina estavam entre os três últimos países da minha lista de destinos. Lista que vai até 2043 – sim, pretendo viajar até os 70 anos, no mínimo. Em relação aos Estados Unidos eu tinha restrições intelectuais, mas por forças de trabalho, estudo e matrimônio – em três anos – desembarquei cinco vezes por lá. Fui e gostei. Portugal, era o primo pobre. Entre tantas opções na Europa, nunca sobrava espaço na minha mala para esse minúsculo país. Foi só encontrar uma passagem barata com conexão em Lisboa, para eu virar freguesa. É o país europeu que mais carimbou meu passaporte. Agora, por conta da paixão pelo español, da admiração por Evita, da loucura pelo tango e dos preços lá no chão achei que era o momento. Se a profecia se cumprir mais uma vez, viro sócia da GOL na ponte-aérea Curitiba-Buenos Aires. Convenhamos, a capital portenha é bem mais cheia de história do que Nova York e bem mais perto do que Lisboa. ¡Ojalá!
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MATRAQUEANDO - Viagens e Comidinhas | Por Sílvia Oliveira | Jornalista | Curitiba, BR

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