quinta-feira, 30 de março de 2017

A ditadura da mala pequena

mala pequena

Não tem muito arranjo técnico ou segredo místico. Para viajar sem despachar é preciso desapego. Observe, as pessoas que conseguem atravessar o oceano — e passar 15 dias do outro lado do mundo — com uma malinha de bordo são seres enxutos por natureza. Nem evoluídos nem descolados. Apenas renunciam aquilo que parece indispensável ao outro.

Nunca fiz (e não pretendo fazer) um post mostrando a montar mala pequena. Algumas dicas vêm a calhar, verdade. Faça rolinhos com as camisetas. Coloque as meias dentro dos calçados. Leve o casaco na mão. Use embalagem miniaturas para cremes e shampoo.  Deixe o secador em casa.

Já falei aqui, aqui e aqui de itens que considero essenciais na bagagem, mas se fosse para eu investir tempo no tema, abordaria essencialmente técnicas de libertação e desprendimento emocional.

Não adianta ensinar a fazer rolinhos com camisetas se você quer levar 14 blusinhas numa viagem de cinco dias. A essência não está na montagem ou no método de organização, mas na abnegação.

O desapego, veja bem, não é indiferença ao bem vestir. É a capacidade de abandonar o desnecessário. Quantas vezes você foi e voltou com um monte de badulaque que sequer chegou a usar? Acontece com todo mundo. Inclusive comigo.

— Ah, mas se eu precisar daquele vestido oncinha? Ou do sapato azul com laço branco?

— 18 pares de brincos são suficientes.

— Huuum, xaver… sete dias… sete calças, é isso!

— Mas eu sou homem, minhas coisas tomam espaço.

Men-ti-ra. Tenho um marido que até há bem pouco tempo se recusava a viajar somente com mala de mão. Pois ele ia e voltava com a bagagem cheia de camisetas, meias e cuecas s.e.m. usar.

Pode não parecer, mas quem viaja sem despachar nem sempre tem vocação para hippie. Meu objeto de contracultura é justamente a não imposição de regras. Criar uma ordem celestial para viajantes desapegados é o que eu não quero fazer aqui.

Quem parte somente com uma malinha de mão ou com uma mochila nas costas não é mais aventureiro, empreendedor ou ousado do que você. Nós apenas queremos tomar conta da viagem. E não o contrário.

Mala é um ser vivo mimado com genoma muito próprio. É um personagem autoritário e dominador. Invariavelmente causa suplício e tormento. A raiz do sofrimento é o apego — como bem dizia Buda. A bagagem que carregamos é a parábola mais bem contada da nossa vida.

Lembra a última vez que você teve que se sentar em cima dela para tentar fechar o zíper daquela bagaça? É necessário impor respeito. Já disse e repito: sua mala não pode ser mais empoderada do que você.

Por outro lado, a mala é sua. A viagem é sua. E sua história é com você. Não deixe que criminalizem ou até ridicularizem seu passeio só porque você chegou à casa da tia para passar o fim de semana com uma samsonite-conteiner de 25 quilos.

Tá, eu confesso que daria um sorrisinho no canto dos lábios. Mas imediatamente me lembraria daquela calça de couro que eu levei na minha primeira viagem à Europa numa mala acoplada a um carrinho de feira. São anos de treinamento e evolução, rapá!

Diga não à ditadura da mala. A imposição desta ou daquela forma de viajar gera um sentimento de frustração naqueles que pre-cis-am carregar o closet nas costas.

E digo mais: se tiver dificuldade de acomodar na bagagem aquele unicórnio que estava passando na sala BEM na hora que você arrumava a tralha, é só colocá-lo dentro de um saquinho plástico zipado. Se fecha, encaixa!

Levem o que quiser. Quem vai arcar com as consequências é você mesmo. Nós não temos nada a ver com isso. Ninguém é obrigado a passar por este sofrimento de escolha e triagem pessoal justamente nas férias se não faz este exercício diário na vida cotidiana.

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