Viagem de volta

A viagem de volta

De fato. Não existe lugar tão acolhedor quanto a nossa casa. Mesmo assim, o retorno não deixa de ser o momento mais ignorante do passeio. A volta é um choque anafilático.

Quase sempre vem junto com uma depressão – ou gripe – que se agrava quando você confirma todos os voos finais. Tudo conspira contra. Minha mãe provavelmente utilizaria a expressão estou na fossa para descrever o quadro.

Na ida, se você vai de São Paulo a Berlim, com escala em Londres, trata-se de conexão internacional. Na volta, o mesmo trajeto passa a ser chamado de pinga-pinga. Na ida, a classe econômica é quase uma executiva. Parece ter mais espaço, o banco reclina mais e as aeromoças são mais simpáticas. Até a comida do avião é maneira.

Já na volta parece que estamos em um teco-teco, sem classe nenhuma e toda pergunta dos comissários tipo “água ou café?” chega a ser uma grosseria. Se no começo da odisséia eu era a desbravadora de mundos agora sou um ser secundário, sem dinheiro, reduzido à insignificante figura de um viajante voltando para casa.

Ao embarcar para o novo destino o tio da alfândega é nosso camarada. Conhecido de muitos check-ins. A gente só mostra o passaporte e escuta a sonora sinfonia “boa viagem!”. Na volta, ele se transforma no homem do saco que, com certeza, vai revistar minha mala e perguntar em tom ríspido o que vou fazer com tanto azeite de oliva.

A volta é uma espécie de pelourinho.  É como queimar a língua. Prender o dedo na porta. Bater o cotovelo na quina. É como nariz entupido. Torcicolo. O fim de um caso de amor. Dói. Aaah, mas como é bom abrir a porta de casa. O alento de que a gente precisa para planejar a próxima… ida.

Texto originalmente publicado na minha coluna “Viagens Econômicas e Inteligentes”,  que sai toda semana no portal Descubra Brasil.

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