quinta-feira, 04 de setembro de 2014

Ofício de blogueira versus espírito de viajante: como manter um sem acabar com o outro

Silvia Oliveira Matraqueando

Não tenho saudades de mim. De quando viajava e não tinha um blog para contar. Ao contrário. Partir está cada vez melhor. Alinhar minhas expectativas com o que o leitor espera do blog me tornou uma turista mais centrada e produtiva. Ser blogueira me obrigou a revisitar lugares e a construir novas percepções da história e das pessoas.

Tive que compreender as necessidades das famílias viajantes, assimilar a aflição do mochileiro fresco e absorver os desafios da cocotinha mão-de-vaca-muquirana. Se viajar é um ato de abnegação, ser blogueiro faz você se esquecer de que algum dia já teve umbigo. Tudo se expande. A paciência cresce. O olhar desabrocha. A empatia ganha.

O lado B existe, porém.  Já não temos aqui (nem por aí) aqueles textos soltos e despretensiosos como “hoje acordei e saí sem rumo pela cidade”. A crônica de viagem se perdeu. É certo que 90% das minhas escapadas pelo Brasil e pelo mundo são baseadas na minha satisfação pessoal.  Luz do espírito viajante. Mas para atender ao plano das férias alheias seguimos, muitas vezes, um script pensado no que você (e não eu) gostaria de fazer. Ossos do ofício.

No blog-passatempo o texto é moldado pelo prazer. No blog-trabalho a gente se esquece disso. Quando tentamos misturar as duas coisas dá nisso: eu só quero falar de Madri e você, já sei, não aguenta mais. Muda de canal sem sequer dizer adios.

Meu sistema operacional interno, o matraquindows,  começa a entrar em colapso sempre que se dá conta de que algumas dezenas de posts que tenho atrasados são voltados ao planejamento da viagem (o que fazer, onde dormir, como chegar) — aqueles focados no blog-trabalho. Tchau espírito de viajante. Embora importantíssimos, não são relatos exatamente prazerosos. Nem de escrever nem de ler. Bem-vindos ossos do ofício.

Se você acha que tenho o melhor trabalho do mundo… você está certo.  Eu escolhi estar aqui.  Por isso, não entenda esse quimera como um amontoado de lamúrias ou incertezas. Não é. Até porque eu deixo o queixume para quem não gosta do que faz. E o Matraqueando é um espaço colaborativo cheio de gente feliz.

Bem-aventurado o blogueiro de viagem que se torna uma espécie de santo de devoção do leitor. A transmutação se dá na caixa de comentários, quando nos convertemos em consultores financeiros (quanto devo levar?), psicólogo comportamental (meu filho vai se adaptar?) e até na moça do tempo (como estará o clima em Veneza em 2017?). Sou grata por confiar em mim. Mas, acredite, não sou especialista em nada. Malemá sei interpretar um mapa.

A questão é saber equilibrar essas duas funções — blogueira e viajante. Será sempre um desafio embaraçoso. É como ser dono e empregado do mesmo lugar ao mesmo tempo. Eu, como patroa do brogue, me dou uma espinafrada e me mando escrever com prazer e dedicação sem nunca me esquecer das necessidades do leitor. Eu, como funcionária da bagaça, só quero saber quando saem as próximas férias e voltar a escrever quando eu bem entender. :mrgreen:

É quando tenho saudades de mim. De quando viajava e não tinha um blog para contar.

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