quinta-feira, 14 de março de 2013

Rota do Cangaço: o passeio que leva você à história do sertão nordestino | Piranhas-AL

Meu avô, pai do meu pai, era alagoano de Santana do Ipanema, sertão nordestino. Como todo cabra macho que nasceu ou viveu por aquelas bandas ele dizia que tinha feito parte do bando de Lampião — cangaceiro ora retratado como matador impiedoso ora como herói da caatinga!

Casario do povoado de Entremontes.

A história do cangaço, aliás, sempre me fascinou. Virgulino Ferreira da Silva é um daqueles personagens brasileiros que até hoje deixam os estudiosos do tema descabelados com tanta informação desencontrada sobre a origem e o fim do périplo bandoleiro.

Ao colocar o Sergipe na pauta da Expedição Brasil Express II descobri (amei, amei, amei!) que a partir de Aracaju era possível fazer a Rota do Cangaço, um passeio que tem base na cidade de Piranhas (Patrimônio Histórico Nacional),em Alagoas. O pequeno município fica na divisa com Canindé de São Francisco (Sergipe), de onde saem os catamarãs que levam ao Cânion do Xingó, um dos principais pontos de visitação do estado. Fechou! \O/

A Rota do Cangaço começa no atracadouro de Piranhas, às 9h, com um passeio pelo leito natural do Rio São Francisco. São 45 minutos de navegação com brisa constante — e uma vista linda do Véio Chico — até à primeira parada: o povoado de Entremontes. O vilarejo, distrito de Piranhas, é conhecido pelo trabalho das bordadeiras de rendedê, herança artesanal passada de geração em geração.

Uma associação — a Cia do Bordado de Entremontes — foi fundada para estimular e preservar essa tradição. Mulheres passam o dia com agulhas, linhas e bastidores nas mãos para criar os mais lindos desenhos em jogos americanos (a partir de R$ 16 cada), pano de prato, toalhinhas de bandeja (a partir de R$ 8) e caminhos de mesa. Aceitam cartão de crédito e débito.

Um pequeno museu na Cia do Bordado abriga peças antigas da arte do rendedê. 

A parada em Entremontes é rápida, 30 minutos. Além de comprinhas você poderá conhecer a casa onde se hospedou Dom Pedro I na passagem do imperador pela cidade e o pequeno museu (com objetos antigos de bordados) que fica dentro da associação, na pracinha principal.

Atracadouro de Entremontes, Alagoas.

De volta ao catamarã seguimos para o ponto (Restaurante Angicos) de onde sai a trilha até à Grota do Angico. Foi aqui que Lampião, Maria Bonita e mais nove cangaceiros morreram numa emboscada. Esse era o momento mais esperado (por mim) do passeio, apesar de estar consciente da caminhada desumana que faria sob um sol de 40ºC pelo sertão nordestino. Aliás, a trilha é opcional, quem não quiser percorrê-la pode almoçar ou ficar tomando banho de rio. O local tem estrutura tipo prainha.

Trilha que leva à Grota do Angico: 700 metros  de caminhada sob 40ºC sem vento.

Cheguei a perguntar ao Raul — vááárias vezes — se ele não preferia ficar com a Mariana ali, à beira do São Francisco enquanto eu fazia a trilha de 700 metros. Mas ele quis ir junto e, claro, teve que levar a filhota no ombro em boa parte do caminho. O certo é que quase a Família Matraca inteira foi pras cucuias de tão absurdamente quente que é o trajeto. Fiquei com medo de passar mal, mas fui caminhando devagar, parando, tomando bastante água e imaginando quão lazarenta era a vida dos jagunços errantes pelo sertão.

Já no começo da caminhada você pode conhecer uma verdadeira casa de taipa que, segundo nossa guia, foi de Pedro Cândido, um dos coiteiros de Lampião. Quando nos embrenhamos pela mata o clima vira uma estufa. Entre mandacarus, cactos diversos e vegetação rasteira você se depara com a Caatinga, bioma que só existe no Brasil e está quase todo no Nordeste. A trilha, tecnicamente, é fácil se não fosse o calor retumbante. São 30 minutos na ida e mais 30 minutos na volta.

Ao chegar à Grota do Angico —  lugar de difícil acesso naquela época e, por isso, considerado seguro por Lampião — o guia (no nosso caso era uma moça vestida de cangaceira muito simpática e falante ) conta sobre o massacre e como se deu o fim de um dos personagens mais controversos da história nacional. Após matarem o Rei do Cangaço e parte do bando, os policiais cortaram as cabeças dos jagunços e as deixaram expostas na escadaria da prefeitura de Piranhas, dando origem a uma das fotos mais emblemáticas deste conflito brasileiro.

No lugar do acontecido, cruzes e uma placa com os nomes dos cangaceiros emboscados e de Adrião, o único soldado morto no confronto. Ou seja, não há nada demais ou visualmente surpreendente na trilha ou na Grota a não ser seu significado histórico.  O que — para mim,  repito — foi mais do que suficiente, outro sonho realizado!

Morro no meio do sertão, mas não perco a pose… nem a flor do cabelo.

Ao voltar ao ponto inicial do trajeto, o almoço que havíamos pedido antes de começar a trilha já estava à nossa espera: tucunaré frito com arroz, feijão de corda e salada (R$ 37 para dois). Mas antes de comer, o Raul e a Mariana correram para o rio e eu tomei um banho, com roupa e tudo, num chuveiro ao lado do restaurante,  tamanho era o meu desespero por causa do calor. (Moro em Curitiba, lembra?)  Já refrescados comemos o melhor peixe da viagem! Dali, o barco volta a Piranhas, onde passamos duas noites na cidade mais importante para a história do cangaço.

SERVIÇO

Rota do Cangaço

Como chegar a Piranhas vindo de Aracaju:

- Carro | Pegue a BR 101 sentido Maceió. Vá em direção ao município de Areia Branca (BR 235) e siga para Itabaiana (passa por fora da cidade). Entre em Ribeirópolis e, em seguida, pela rodovia estadual SE -106, passe pelos municípios de Nossa Senhora Aparecida e Nossa Senhora da Glória (cidadezinha com mais estrutura, restaurantes, lanchonetes, lojinhas, posto de gasolina, etc).  Siga pela rodovia SE-206 e passe por Poço Redondo, Canindé e, finalmente, Piranhas. São 220 quilômetros. Todo o trajeto tem placas indicativas e a estrada está relativamente boa. É difícil se perder. No mapa acima não aparece Piranhas como destino final, porque o Google Maps faz uma volta enorme de Canindé a Piranhas. Mas chegando a Canindé (SE) é só atravessar uma ponte e você está em Piranhas (AL). (Nós alugamos um carro em Aracaju). Em tempo: de Maceió são 280 km.

- Ônibus | Você pega o ônibus na rodoviária nova de Aracaju. São 4,5 horas de viagem entre Aracaju e Piranhas. Passagem a R$ 21. Caso prefira ir a Canindé primeiro, você pega o ônibus na rodoviária velha de Aracaju. Há várias saídas diárias. Tarifa a R$ 19. (De Canindé a Piranhas você pode ir de táxi ou moto-táxi. São 10 minutinhos, no máximo).

- Excursão | Caso você não queira ir por conta, várias agências (como a Nozes Tur e a Peregrinos) fazem o passeio tipo bate e volta saindo de Aracaju. (Existe também um pacote que dura dois dias e inclui os passeios  Cânion do Xingó e Rota do Cangaço, uma noite em hotel e o traslado por R$ 320 por pessoa. Crianças até 3 anos não pagam e de 4 a 9 anos pagam 50% deste valor).

Quanto custa: só o passeio custa R$ 50 (mais R$ 5 para fazer a trilha até à Grota do Angico, trecho opcional). Eu comprei meu voucher direto no hotel (reservei com antecedência). Já os pacotes oferecidos pelas agências custam R$ 115. Inclui traslado ida e volta e o catamarã. (Almoço à parte).

Quanto tempo dura o passeio: 4,5 horas.

Dica da Matraca |  Não esqueça o traje de banho. Para fazer a trilha do cangaço vá com roupas leves, confortáveis e tênis. Passe muito protetor solar e use chapéu. Leve água fresca e bom humor. O trecho é cruel, mas fica pra sempre na sua história.

Fotos: Raul Mattar e Sílvia Oliveira

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Minha viagem ao Sergipe faz parte da Expedição Brasil Express II, projeto do Matraqueando que leva recortes do nosso país até você.

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