-  Atualizado 21/03/2018

Feira do Açaí, Belém: a essência da identidade paraense

Publicado por: Silvia Oliveira Belém

Feira do Acai Belem Para 04

Às cinco da matina saltamos do táxi na Praça do Relógio. Estava escuro e a região portuária não parecia muito amigável. Eu carregava uma Mariana sonolenta no colo enquanto o Raul abria caminho para a gente passar pela calçada apinhada de gente. Chegamos na hora do rush.

— Vamu rápido, Damião! – gritava apressado um carregador com três cestos de açaí na cabeça. (Cada um pesa 15 quilos.)

Feira do Acai Belem Para 09

A movimentação ao lado do Mercado Ver o Peso começa cedo. Por volta da 1h da manhã chegam os primeiros barcos abastecidos com toneladas de açaí recém-colhidas da floresta e ilhas da região.

Feira do Acai Belem Para 01

Durante a madrugada, o enorme pátio — emoldurado pelo Forte do Castelo e pela Baia do Guajará — se transforma numa das cenas mais singulares do Brasil. Alguns milhares de cestos, chamados de paneiros, tomam conta do local e proporcionam aquela experiência antropológica, autêntica e única que todo turista gostaria de ter.

A Feira do Açaí de Belém é puro turismo de contemplação. Não se faz nada muito diferente senão observar o vai e vem dos carregadores, a pintura naïf formada pelos barquinhos ancorados, a história que passa de geração em geração, a formação da economia popular e a preservação da identidade.

Feira do Acai Belem Para 02

É a memória de uma região, onde o consumo de açaí em litros chega a ser o dobro do consumo de leite. (Pai d’égua! – pensei.)

— Dá licença, moça bonita! – pede outro carregador, esbaforido. (A moça bonita era eu, em transe atrapalhando o trabalho da rapaziada. Paixonei!)

Como o açaí é muito perecível a negociação após o descarregamento é rápida. Os vendedores, aos berros, tentam oferecer o melhor preço — que varia de acordo com o grau de maturação, tamanho e variedade.

Feira do Acai Belem Para 03

Vai pagar mais caro quem quiser levar o famoso Açaí Branco que, na verdade, é verde. Embora não pareça, esta espécie mais exótica da fruta já alcançou seu grau máximo de maturação, mas não mudou de cor. Como chega em menor quantidade, o Açaí Branco é vendido como se fosse uma iguaria, quase uma trufa paraense. Tem sabor diferenciado, dizem.

— Simbora, menina, olha o passo! (A menina era eu, ainda em transe atrapalhando o trabalho da rapaziada. Largada de amor!)

Feira do Acai Belem Para 08

Comprador é o que não falta. O Pará é o maior produtor nacional da frutinha, o que corresponde a 85% do total produzido no Brasil. Sem contar que o próprio paraense é um consumidor compulsivo do açaí. Mas esqueça a granola e a banana.

Por aqui, o açaí acompanha peixe, farinha e camarão. Também vira mingau, suco ou sorvete. Muita gente come sem açúcar durante as refeições. Já quem adoça está com a sobremesa garantida.

Feira do Acai Belem Para 05

O sol nasce e o descarregamento diminui. Lá pelas 7h da manhã você só vê os cestos vazios, empilhados de cabeça para baixo. A esta hora, bares, restaurantes, sorveterias e lanchonetes  — não só da capital, mas de toda a região — já estão abastecidos com o fruto negro-arroxeado. O açaí passará por uma despolpadeira até se transformar naquele caldo grosso (ou mais fino, depende do freguês) chamado “vinho do açaí”.

Feira do Acai Belem Para 07

Também já havia chegado minha hora de partir. (Valeu, Riq Freire, se não fosse esse seu post eu não teria vindo até aqui!) O Mercado do Peixe, logo ao lado, me esperava. Mas tive uma espécie de delirium tremens, aquela psicose causada pela ausência de algo que eu não poderia voltar a experimentar tão cedo. Feira do Açaí você só encontra em um único lugar do mundo: Belém.

Não queria abandonar aquela dança sincronizada, os frutos simetricamente organizados, o moça bonita, a coreografia perfeita do tira o cesto do barco, descarrega no pátio, volta para o barco, tira do barco

“— Simbora, menina, olha o passo!”

Feira do Acai Belem Para 06

SERVIÇO

Feira do Açaí de Belém

Local | ao lado do Mercado Ver o Peso, entre a Praça do Relógio e o Forte do Castelo.

Horário | madrugada adentro, com horário de pico entre 5h e 6h.

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Fotos: Raul Mattar | Todos os direitos reservados. ©

 

Minha viagem ao Pará faz parte da Expedição Brasil Express II, projeto do Matraqueando que leva recortes do nosso país até você.



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40 Comentários

  1. Graziela Silva

    Silvia, estava aguardando ansiosamente seus posts de Belém. Delicioso este, assim como açaí com pirarucu frito. De fato, é uma experiência única, de contemplação. E como são lindos os cestos repletos da frutinha! Fiquei com vontade de voltar no dia seguinte. Ficava pensando: quando eu vou poder ver outra feira como esta? Bem, só voltando… Interessante que ao chegar a gente se sente meio inseguro, mas depois passa. A massa ali é de trabalhadores, gente de bem. A feira de peixes é outro ‘trem de doido’. Os carregadores passando apressados, os pescadores com imenso orgulho daqueles peixões, as garças sobre os caminhões frigoríficos só aguardando as sobras. Só de lembrar, me dá vontade de ir correndo comprar uma passagem pra Belém. Abç

    responder
    • Silvia Oliveira

      Grazi, quando eu cheguei à feira também fiquei meio desconfortável. Estava com a Mariana no colo (que não conseguia acordar de jeito algum) e parecia que eu estava atrapalhando aquela sinfonia. Mas depois fui me acostumando e acredito que tenha sido uma das melhores experiências que tivemos em Belém. 😉

      responder
  2. Janice

    Valeu a pena esperar. Fazia tempo que você não postava, já sentia falata dos seus artigos. Que linda essa feira, que lindo nosso Brasil. Coisas que a gente vê só no Matraqueando. Beijos, querida!

    responder
    • Silvia Oliveira

      Janice, tirei férias forçadas! Mas já estou de volta! 😉

      responder
  3. Jessica Ramos

    Estava ansiosa pelos seus posts sobre Belém! Minha cidade é linda e única! Maravilha matar a saudade com seus textos e fotos maravilhosos!

    responder
    • Silvia Oliveira

      Obrigada, Jessica! Ainda tenho muito o que falar de Belém e do Marajó. Abs!

      responder
  4. Cândida Silva

    Minha morena Belém lindamente retratada aqui! Parabéns pelo post e pelas fotos. Também faço parte do time das que estavam a espera da série sobre A cidade das mangueiras! Ficaste para assistir ao Círio?

    responder
    • Silvia Oliveira

      Cândida, não ficamos para o Círio, fomos embora alguns dias antes. Mas estamos nos programando para voltar em 2014 com os meus pais! 😉

      responder
  5. Luisa M.

    Que experiencia fantastica. O açai chega para nós e nem nos damos conta de como é toda a materia prima. Eu nem sabia que o Pará era o maior produtor nacional. Parabéns pela linda reportagem! Bjs.

    responder
    • Silvia Oliveira

      Luisa, o Pará é um estado genuíno, único! Acho que demorei a postar sobre o estado porque nem sabia por onde começar!

      responder
  6. Luiz W

    Silvia, eh comum vermos toda essa movimentacao na feira do acai qndo estamos voltando da balada hehehehe. Eu moro (morava; na realidade minha mae ainda mora) perto do polo joalheiro.

    responder
    • Silvia Oliveira

      Que bacana! A hora do rush é bem na volta da balada mesmo, tipo às 5h da madruga! Hahaha!

      responder
      • Luiz W

        exatamente! as vezes ate rola parada no “verópa” (ver-o-peso) para um lanche depois da balada e antes de ir para casa.

        responder
  7. Muito bom, meus parabéns, adorei!

    responder
  8. Ana Lúcia

    Oi Silvia, que maravilha é a feira do açai. Uma experiência única e o seu post está perfeito, retratando exatamente o que ocorre no amanhecer de Belém/PA. Pena nåo saber que estavas na cidade…

    responder
  9. Tony Damasceno

    Isso é poesia pura. Que maravilha. Sou do Piauí, adoro Belém e açaí. Em meu sítio (em Teresina) tenho u’as moitas de açaí e até comprei uma despolpadeira pra curtir o vinho fresquinho. Não há nada melhor. Parabéns.

    responder
  10. Erickson

    Boa noite! Gostaria de saber como faço para adquirir a fruta em minhas mãos, em São Paulo, para eu despolpa rizar.

    responder
  11. Alessandra Resque

    Moro em Belém. E sou apaixonada pelo ver-o-peso.
    Amei o seu post. Obrigada pelo carinho com o Ver-o-Peso, o Moça Bonita.

    responder
  12. katia barros

    Pabéns Silvia pelo excelente post.Vc. descreveu um local e uma cultura pouco divulgado como visitas turísticas, e descreveu perfeitamente a cultura paraense….

    responder
    • Silvia Oliveira

      Obrigada, Katia! 😉

      responder
  13. Yuri Núñez

    Silvia, tua descrição foi bem fiel! É difícil alguém entender nossa cultura sem errar algum detalhe (ou o nome de algum rio/comida, etc.). E o final do post foi tão bonitinho haha, pareceu uma música…

    “Tira o cesto do barco, descarrega no pátio, volta para o barco, tira do barco… Simbora, menina, olha o passo!” 🙂

    responder
    • Silvia Oliveira

      Valeu, Yuri! 😉

      responder
  14. Muito bacana essas informações sobre o Açaí! Parabéns pela maravilhosa reportagem, Moça Bonita!

    responder
    • Silvia Oliveira

      Hahaha, obrigada! 😉

      responder
  15. ALEX VICENTE

    Excelente artigo, cada região esse imenso Brasil, tem suas características próprias.
    Encontrei esse ótimo artigo, procurando por carregadores, para descarregar carga de um caminhão, sabe onde encontro?

    responder
    • Silvia Oliveira

      Obrigada, Alex! Mas não saberia informar sobre os carregadores! Abs!

      responder
    • felipe conde lopes

      ola tudo bom estou procurando produtor pra comprar o açai fruto, estou pagando 20,00 na rasa com 28 kg….meus contatos sao
      21967666415
      felipe

      responder
      • RAIMUNDO FREITAS

        Boa tarde,
        Vc tem informações sobre compradores de essencia de açaí?
        Precisamos para maiores informações

        responder
  16. Loanda

    Olá Silvia, eu e meu marido pretendemos ir a Belém em outubro. Em qual região da cidade você aconselha ficarmos hospedados? Qual hotel voês ficaram? Depois de Belém, pretendemos ir ao Marajó. Lá vamos seguir suas dicas de pousadas.
    abraços
    Loanda

    responder
  17. Di Oliveira

    Seus posts são lindos! A gente meio que consegue vivenciar o que você viu apenas pelasa suas palavras….sou de Belém e nem mesmo eu teria descrito tão bem tudo isso!

    responder
    • Silvia Oliveira

      Que alegria saber disso, Di! Obrigada por matraquear com a gente!

      responder
  18. Loanda

    Olá Silvia, você poderia me indicar qual a melhor região para ficar hospedado em Belém? Gosto das suas dicas de hospedagem. Onde você ficou?
    abraços
    Loanda

    responder
    • Silvia Oliveira

      Loanda, nas duas vezes em que fiquei lá me hospedei no centro, perto do Theatro da Paz. Por ser região central é bem muvucada, mas tem tudo próximo e com fácil acesso aos atrativos turísticos. Abs!

      responder
  19. Fiquei interessado nos preços praticados no Belem do Pará !
    Moro no sul do Brasil e aqui o preço é mais elevado…
    Voce pode informar o preço médio do LITRO de açaí já beneficiado ?

    responder
    • Silvia Oliveira

      Não tenho ideia, Bruno! Eu visitei a feira como turista e já faz algum tempo. Tente entrar em contato diretamente com os revendedores/lojas em Belém! Abs!

      responder
    • Ana Cláudia

      Em Belém o litro do açaí varia de R$ 12,00 a R$ 20,00.

      responder
  20. RAIMUNDO FREITAS

    Estamos em pesquisa de para elaboração de projeto na FUNDAÇÃO GETÚLIO VARGAS exportação de essências do açaí, andiroba e pau-rosa.
    Gostaria portanto de contatos de pessoas que possam nos dar informações sobre possíveis clientes sejam nacional ou internacional.
    Meu nome: Raimundo Freitas
    Curso: GESTÃO EMPRESARIAL – MANAUS – AM.
    Email: [email protected]

    responder
  21. Lailson Barros

    Que lindo esse texto!!! Garanto que me sentir totalmente envolvido com as emoções que ele me despertou!!!!! Realmente minha Belém é linda!!!! Continue escrevendo não só para mostrar as belezas do nosso País, mas também para nos proporcionar leituras tão agradáveis como esta!!!! Parabéns!!!!

    responder
    • Silvia Oliveira

      Obrigada pela visita, Lailson!

      responder

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