San Pedro de Atacama

Acredito que eu tenha sido o único ser vivo a arrastar uma mala de rodinhas pelas ruas empoeiradas de San Pedro, no coração do Deserto do Atacama. Quando olhares encabulados começaram a me seguir achei que estava abafando no meu modelito safari, chapelão à la Indiana Jones, óclão by Jaqueline Kennedy e com meu tênis all star cor verde-matinho-seco. Pra combinar. Rá!

Estava entrando num deserto de paisagens lunares, rodeado de vulcões, com inversões térmicas bruscas – chegando a 30 graus de dia e a menos dois na madrugada. Parece que não, mas eu sabia o que ia encontrar. Só não faço a linha grunge-mochileiro-desgrenhado-sei-lá-entende. Poderia ter ido para os Lagos Andinos, ou circulado pela Patagônia. Quem sabe, Ilha de Páscoa. Mas não.

Enfrentar a realidade do deserto cercada por aquelas paisagens absurdamente atípicas era um desejo mais do que antigo. Sim, o nariz e a boca ressecam. A pele fica áspera. Os olhos ardem. E o cabelo parece que nunca mais vai voltar ao normal, nem com creolina. Fui preparada. Muito soro fisiológico, pomada para os lábios, colírio que imita a lágrima. Fiquei craquenta, não nego. Mas sem perder a classe jamais: esmalte para retocar, sempre.

Do aeroporto de Calama até aqui são 105 quilômetros, pouco mais de uma hora. Ao chegar a San Pedro de Atacama tive uma sensação que só senti em outro lugar no mundo, olha que paradoxo: Veneza. Enquanto ela está plantada em cima de um oceano, ele fincou raiz no deserto mais árido do mundo. Em comum, o incomum. Ambas cidades parecem ter saído de alguma estória de Julio Verne.

Pouco mais de cinco mil pessoas vivem em San Pedro. Um vilarejo feito de casas com paredes de barro e telhados de palha. Apenas para proteger do sol. Chove quase nunca. Descrever aquele grupo de quarteirões como uma vila de faroeste seria muito simplista. Há uma enorme infra-estrutura (bares, restaurantes, cafés, lojinhas, mercados) para receber os turistas que vão desde mochileiros, passando por senhores dinamarqueses cheios da grana até chegar às frescas muquiranas como eu.

Aliás, o que não faltam são albergues, um a cada dois metros. Bons hotéis se espalham ao redor da calle Caracoles, a principal rua da cidade. E resorts luxuosos – com sistema all inclusive – já são vários. Fiquei no único apart-hotel de San Pedro, o Parina Atacama (US$ 120,00 por casal, com café da manhã servido no quarto!), inaugurado há pouco mais de um ano. Já sabe, quanto mais inóspito, inacessível ou exótico o lugar, aposte numa boa hospedagem. Como eu não queria, assim, nenhuma vivência estilo patropi investi neste quesito. Saiu caro para os meus padrões. Mas teria sido um desastre se eu tivesse ficando em algum hostel por US$ 10,00 que regula a água quente e desliga a calefação à noite.

Independente de onde você for ficar, todo mundo está ali com o mesmo propósito: levar para casa uma experiência única, de um lugar exclusivo, que jorra água fervente do chão, que tem lagoas azuis, dunas douradas, cercado pelo segundo maior salar da Terra, cheio de flamingos e abraçado a um enorme vulcão.

Fotos: Raul Mattar

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7 comentários

  1. Comentário do dia 12/1/2010 às 10:24

    Oi, Silvia tudo bem?
    Essa primeira foto do post esta Maravilhosa e profundidade que se conseguiu com asegunda sem comentários. Pontos com pouca umidade no ar são os paraísos dos apaixonados por fotografia.
    Estou com muita vontade de encarar um Chile/Peru este ano e teus posts estão ajudando muito nisto.
    FUI!!!

    (Responder)

    Resposta de Silvia Oliveira

    Opa, vamu trocando informação, é só perguntar! Abs!

    (Responder)

  2. Tiago
    Comentário do dia 12/1/2010 às 16:24

    Se eu já tinha vontade de conhecer o Atacama, depois das suas fotos a vontade só aumentou. Tenho aguardado ansiosamente pelos seus posts do local.
    Ah… sou um leitor recente do seu blog, que já ficou viciado nele! rs
    Tiago

    (Responder)

    Resposta de Silvia Oliveira

    Obrigada pela audiência, Tiago! As fotos são do Raul Mattar… meu marido e matraqueiro também! =)

    (Responder)

  3. Ana Cristina
    Comentário do dia 12/1/2010 às 23:09

    Oi Sílvia:
    que maravilha de texto e fotos, adorei! aumentou ainda mais minha vontade de ir a S.Pedro do Atacama.
    Vc continua linda! e agora é mãe, parabéns!
    Pretendo voltar ao solmiro, tomara que vc seja minha professora novamente.
    Um abraço, Ana Cristina.

    (Responder)

    Resposta de Silvia Oliveira

    Ow, lôco, quanto tempo! Brigada pela visita! Bom saber de você! Abs!

    (Responder)

  4. Comentário do dia 08/2/2010 às 10:18

    Que show, que show, que show!!! Tbm queeeeeeero! :-)
    Beijos, Angie

    (Responder)

  5. Alessandra
    Comentário do dia 24/5/2010 às 23:20

    Olá Silvia, acabo de me deparar com suas dicas sobre o Atacama e me apaixonei ainda mais pelo lugar. Gostaria de saber qual a melhor época pra visitar. Tô meio perdida… Pretendo ir em agosto.
    Obrigada.

    (Responder)

    Resposta de Silvia Oliveira

    Alessandra! Como chove quase nunca no Atacama, qualquer época é boa! Sempre vai ter um céu azulzinho lhe esperando. Mas em agosto será bem mais frio à noite, com temperatura mais amena durante o dia. Como eu sofro demais com o frio, fui em novembro… estava super agradável à noite, mas beeem quente de dia (uns 33º graus). Mesmo assim, na visita aos geiseres de el tatio, a 4 mil metros de altura, que sai às 4h da manhã, pegamos -5º. Em agosto essa temperatura deve ser de -15º… Ui! :-)

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  6. Comentário do dia 29/5/2010 às 22:55

    Silvia,
    Você acha que setembro é uma boa época para ir ao Atacama? E quanto você acha necessário reservar para gastos diários em San Pedro do Atacama, além dos passeios e hospedagem?
    Obrigado.

    (Responder)

    Resposta de Silvia Oliveira

    Tiago, setembro é boa época para ir ao Atacama, sim. Temperratura amena de dia e de noite. Além dos passeios e hospedagens, uns 30 dólares para refeições e lembrancinhas! O que encarece mesmo uma viagem para lá são justamente os passeios… sempre caros!

    (Responder)

  7. gabi
    Comentário do dia 31/8/2010 às 09:48

    Olá Silvia,
    Adorei seus relatos sobre o Atacama. Estou até programando uma viagem para lá nas minhas proximas férias.

    Tenho tres perguntas:
    *Vi pelas fotos que vc sempre estava de blusa de manga cumprida, mesmo durante o dia. Estava frio ou era para proteger do sol?
    *Vc sabe me dizer a que horas (+ ou -) o sol se põe?
    *Consigo comprar os passeios com facilidade? Chegarei de manhã e já quero passear na parte da tarde.

    Abraços
    Gabi

    (Responder)

    Resposta de Silvia Oliveira

    Sim, a manga comprida era para proteger do sol. Sou muito branquela. E ainda assim, meu braço descascou, acho que pela secura do ar. 8-O
    O sol se poe mais ou menos às 18h30.
    Sim, consegue comprar os passeios com muuuita facilidade. O que mais tem na rua principal da cidade (Calle Caracoles) são agências que vendem os tours!
    Abs!

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