Comidinhas de rua

É certo. Na França ninguém perde um crepe de esquina. Se o destino for Grécia, todo mundo quer experimentar o gyros – o nosso churrasquinho grego. Ao circular pela Alemanha, qualquer salsichão é bem-vindo. No Brasil, se você sai para comer um bolinho de bacalhau, ali no bar daquele tiozinho perto do seu trabalho, todo mundo vai dizer: óóó, cuidaaado!

Comidinhas de rua sempre tiveram fama – seja pela diversidade, preço baixo ou risco de provocar um desarranjo inconveniente. Verdade seja dita. São irresistíveis. O segredo está em encontrar uma comidinha boa-pinta, com seguro de origem (a indicação de alguém, por exemplo) e garantia de saída. Lugares cheios significam que o quitute é novinho já que o rodízio de gente é grande.

Se seu amigo estrangeiro viesse ao Brasil e quisesse provar algum pitéu ou petisco típicos daqui o que você recomendaria? Pão de queijo? Mandioca frita? Fariam sucesso. Agora, arrisque mais. Em qual outro lugar do mundo você encontra coxinha de frango com catupiry? Imagine oferecer uma iguaria dessas por apenas R$ 2,50? Passando por qualquer feira ao ar livre, o pastel de carne (com caldo de cana!) sempre dá samba e para o gringo não sai mais do que US$ 2,00. 

Sem falar no espetinho, assado na hora. Sim, aquele que muita gente desconfia de que seja feito com carne de gato. Por que quando você está fora do Brasil não faz as mesmas suposições? Gato existe em qualquer lugar do mundo. Pois é, trate de deixar o preconceito trancado dentro da mala. Aposto que quando você pede na Holanda aquele cone de batatas fritas cheio de maionese nem pensa que isso, de fato, pode dar uma tremenda desconjuntura e acabar com sua viagem. 

Imagino, algum receio você teve na Bahia quando pensou duas vezes antes de provar o acarajé – uma das especialidades gastronômicas mais típicas do país. Por módicos R$ 3,00 é possível mergulhar na culinária local e provar uma massa suave feita de feijão-fradinho, frita em azeite de dendê e recheado com uma pasta de vatapá, camarão seco, pimenta (a gosto!) e salada. Daí para a pamonha são dois pulos. Geralmente vendida na beira da estrada, ao lado do curau – outro acepipe com a cara do Brasil – o manjar de milho cuidadosamente embalado numa palha deveria virar patrimônio imaterial.

Provemos, então, o afamado sanduíche de pernil, oferecido nas melhores casas do ramo. Pão crocante, carne desfiada e levemente tostada. Alguns acompanham pedacinhos de abacaxi. Mais tupiniquim do que isso só o queijo coalho – feito na hora, em baldes improvisados pelos vendedores ambulantes espalhados pelas principais praias do Brasil. Custa entre R$ 1,50 e R$ 3,00 – quando muito caro. Aliás, não só na praia. O melhor queijo coalho que comi foi na Rua 25 de Março, em São Paulo. Uma temeridade, eu sei. Mas, como podem ver, sobrevivi para contar história.

Foto: Queijo coalho na Rua 25 de Março, em São Paulo. (Raul Mattar)

Texto publicado originalmente na minha coluna “Viagens econômicas e inteligentes”, que sai semanalmente no portal Descubra Brasil.




Hospedagem em San Pedro de Atacama

Acredito que há poucos lugares no mundo com uma oferta tão democrática de hospedagem numa área tão pequena e inóspita como San Pedro de Atacama. Ao longo da calle Caracoles – a principal da cidade – há algumas dezenas de albergues e pousadinhas que cobram a partir de US$ 10,00 por um quarto coletivo. Não muito longe dali aparecem os hotéis que variam de meia-boca à categoria luxo.

Optamos pelo Parina Atacama, o primeiro apart-hotel de San Pedro, inaugurado há pouco mais de um ano. Está a 10 minutos caminhado do centrinho. As acomodações são duplex. Na parte de baixo, cozinha equipada, sala e banheiro com toalhas felpudas. Em cima, uma espaçosa e confortável cama. Tem televisão, wi-fi grátis e uma bicama, portanto acomoda até quatro pessoas, que são cobradas à parte. Diárias para casal a partir de US$ 120,00.  O café da manhã – servido no quarto – está incluído. Tudo novinho e atendimento absolutamente personalizado. Quando chegamos fomos recepcionados com bolo típico e suco. Fofo!

Para o meu padrão mão-de-vaca-muquirana pagar mais do que US$ 100,00 na hospedagem é quase um acinte a minha inteligência. Mas como se tratava de um deserto no fim do mundo – na minha concepção urbanóide – eu é que não ia ficar num pardieiro qualquer. Entenda: uma espelunca em Paris pode ser chamada de “casarão do século 16”. Já um muquifo no meio do deserto só pode ser chamado de… muquifo! Ficar hospedada num local padrão quatro estrelas contou muitos pontos para o êxito da minha viagem.

Outras opções de hospedagem em San Pedro de Atacama

Hospedagem Muquirana
Hostelling San Pedro
Albergue filiado à rede Hostelling International. Oferece camas em quartos coletivos a partir de US$ 10,00. Quartos duplos com banheiro compartilhado ficam em torno de US$ 36,00. Preços para associados à rede internacional de albergues. Café da manhã e lencóis incluídos. Só tenho coragem de indicar este porque foi o único albergue que visitei. A recepção é assustadora de tão feia. Mas os quartos são ajeitadinhos. Para conhecer outros hostales em San Pedro de Atacama, clique aqui.

Hospedagem Classe Média
Além do apart-hotel Parina Atacama (onde nos hospedamos) achei uma graça o Hotel Kimal. Bem próximo da rua principal, oferece um certo luxo sem cobrar valores de resort. O hotel, com café da manhã estilo buffet , recria a arquitetura atacamenha. Tem restaurante e piscina. Quarto duplo a partir de US$ 185,00.

Momento extravagância
Hotel Explora
Um luxuosíssimo complexo para deixar qualquer fresco/a deslumbrado/a. (Alguém chamou?) Três noites em quarto duplo saem por US$ 1920,00. Obviamente, tudo incluído – desde café da manhã, wi-fi e os principais passeios. No Brasil, eles disponibilizam um telefone para tirar dúvidas e maiores informações: (11) 8266 8110

Fotos: Matraca’s Image Bank

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Atacama: 2º dia | Salar de Tara
Atacama: 3º dia| Manhã: Tour Arqueológico
Atacama: 3º dia | Tarde: Lagunas Cejar e Tebinquiche
Atacama: 4º dia | Lagunas Altiplânicas
Atacama: 5º dia | Gêiseres El Tatio
Hospedagem em San Pedro de Atacama
No Atacama fique atento ao solmáforo




Atacama: 5º dia | Gêiseres El Tatio

O que uma pessoa do meu naipe – que só conhece o bom humor acima dos 22 graus – vai fazer em um passeio que começa de madrugada, chega a muitos graus abaixo de zero e, ainda por cima, a 4.300 metros de altitude? Fiquei tensa desde a noite anterior. Escutei mil recomendações. Faça um jantar leve, não beba, durma cedo. O tour ao Gêiseres El Tatio é considerado o mais cruel pela maioria dos visitantes. A estrada que leva até o campo geotérmico é perigosa, cheia de curvas e sem sinalização. Além de sentir o mal das alturas (também chamado de soroche), alguns turistas ficam enjoados com a descompostura da van, que chacoalha sem parar.

Pois então… não senti nada (além de frio, claro!) O guia passou para nos pegar às 4h da madrugada. Entrei no veículo e dormi até o destino final. Os gêiseres do Atacama estão localizados na cordilheira andina, a 100 quilômetros de San Pedro – cidade base para explorar toda a região. São quase duas horas de viagem até lá. O fenômeno começa bem cedinho, mais ou menos às 6h da manhã. Enormes fumarolas escapam através de buracos e fendas no solo. Lençóis subterrâneos de água entram em contato com rochas quentes, provocando pequenas explosões. Alguns jatos chegam a 10 metros de altura, a quase 80ºC.

Na entrada do campo geotérmico – onde você compra o ingresso – há um termômetro. No dia em que fomos marcava 8 graus abaixo de zero. Uma espécie de “veranico”, digamos assim. No inverno pode chegar a 30 graus negativos. Obviamente que ao ver a temperatura já fui afetada psicologicamente e quase me atrevo a não sair do carro. Mas ao me aproximar da área, uma extensão de três quilômetros, com aquela visão que a gente tem só quando vê filmes do tipo Avatar entendi porque é considerado “o” principal passeio pela maioria.

É uma experiência sensorial. Você desce da van, encaranga devido ao frio, respira com dificuldade por causa da altura. Cinco passos são suficientes para observar a fotografia que o lugar proporciona. Começa tudo cinza.  As primeiras fotos do post não estão em preto e branco. Essa é a luz do local pouco antes do amanhecer. A composição é gerenciada pelo sol. Quando ele começa a aparecer, os gêiseres entram em ação com mais força. Há várias placas indicativas alertando para não se aproximar muito do fenômeno. Em menos de 20 minutos, o quadro ganha cores. O céu azulíssimo em contraste com as montanhas douradas. Ao redor desmedidas fumarolas brancas. (Aliás, tudo no Deserto do Atacama é enorme, colossal, gigantesco, imenso … desculpe-me se sou repetitiva).

Quarenta minutos após a nossa chegada os guias começam a preparar o café da manhã, servido ali mesmo. Em seguida, todos partem para uma piscina termal que fica no próprio campo geotérmico. Não há nenhuma infra-estrutura. Os interessados em dar um mergulhinho num bacião a 40ºC (lembrando que estamos abaixo de zero!) devem ir com o traje de banho por baixo da roupa. Eu? Se ainda houvesse exame médico no local para atestar que ninguém tem micose, frieira, pereba ou chulé… nem morrrrrta, santa!

Nosso último passeio, supostamente, acabava ali - no Piscinão de Ramos do Atacama. Mas como tudo no deserto reserva uma surpresinha no final, ao regressar dos gêiseres El Tatio conhecemos Machuca – um pueblo atacameño praticamente desabitado. Na única rua do vilarejo, o clássico da região: casas de barro, teto de palha e uma igrejinha ao fundo.

A meia dúzia de moradores dali espera ansiosa pelos visitantes diários que vão abocanhar os (carésimos) espetinhos de carne de lhama (2.500 pesos cada, cerca de US$ 5,00) e as empanadas de queijo de cabra (700 pesos ou US$ 1.50). Comi dois churrasquinhos e uma empanada – que era imensa – sozinha. O Raul não arriscou nem um, nem o outro. (Depois eu é que sou a fresca, né!)

Fotos: Raul Mattar (menos as do espetinho de lhama e a da empanada de queijo de cabra que pertencem ao Matraca’s Image Bank)

SERVIÇO:

Contratamos todos os passeios na agência Lickan Antay.
A desgramada não tem site. Fica na c/ Caracoles, 419 – Tel.: (+56) 55 591799 e 55 591800.
Valor do tour: 15 mil pesos (US$ 30,00)- por pessoa. Inclui café da manhã.
Valor da entrada: 3.500 pesos (US$ 7,00).

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Descubra Brasil: novo portal incentiva viagens nacionais

Quando fui convidada para ser uma das colunistas do portal Descubra Brasil não pensei duas vezes. 2010 é um ano em que eu quero me dedicar a viagens tupiniquins, justamente a proposta do novo grande site brasileiro de incentivo aos passeios nacionais.

O Descubra Brasil é um portal de viagens, com informações completas (hospedagem, cultura, notícias e eventos) para ajudar você a montar seus roteiros dentro do país.  No link “Dicas de Viagem”, por exemplo, é possível encontrar sugestões de passeios nos quatro cantos do Brasil, estado por estado.

Minha coluna “Viagens econômicas e inteligentes” vai tratar do que eu mais sei (e gosto de ) falar: como desfrutar o mundo sem ter que vender as cuecas para isso. Na coluna dessa semana “Comidinhas de rua“. Passe !




Bom dia, Matraquete!

Certo, pode brigar. Aceito. Mas você tem que entender. Tô dodói. Meu pulso está melhorando dia a dia. Já não sinto tanto dor. Pero, continuo com os anti-inflamatórios. Desde sexta-feira praticamente não sei o que é um mouse. Parece pouco? Para quem tem um meio de comunicação como eu –  o Matraca News –  é quase uma eternidade.

Só vim dar uma satisfação. Ainda faltam alguns posts para terminar nossa série sobre o Chile. Entre minhas oito tarefas urgentes de hoje está a publicação do post sobre os gêiseres El Tatio – um dos maiores campos geotérmicos do mundo. Força na peruca!




Atacama: 4º dia | Lagunas Altiplânicas

Já disse aqui que o Salar de Tara é um dos passeios mais completos, mas o que leva às Lagunas Altiplânicas foi o meu preferido. Vamos percorrer pequenos povoados altiplânicos, ingressar no Salar de Atacama e conhecer as lagunas Miscanti e Meñiques, as mais chocantes de todo o deserto. Era para ter dado errado. Neste dia – nosso penúltimo aqui – a van contratada não apareceu para nos pegar no hotel. Um erro interno da agência. Sorte que eu tinha o telefone celular do dono da Lickan Antay, o amável Señor Jesús. Para resumir minha uma hora e meia de espera: acabaram enviando um motorista particular para o nosso passeio. (Você acha que eu gostei ou não?) :-)

A apenas 39 quilômetros de San Pedro está Toconao, a primeira parada. O vilarejo é quase um desatino na região mais seca do mundo. Rodeado por água doce – sem arsênico – se transformou num grande produtor de frutas e hortaliças. Os moradores de Toconao têm origem pré-hispânica, como quase todo mundo por essas bandas. Na arquitetura da cidade – que mais parece uma aldeia – é típica a liparita, uma pedra vulcânica branca, extraída de uma pedreira que fica a dois quilômetros dali. Na pracinha, uma igreja com o campanário do século 18 em frente, alguns cactos e lojinhas de artesanato.

Em quase todos os passeios você encontrará enormes regiões com salares. Mas existe o específico Salar de Atacama, onde fica a Laguna Chaxa – nosso segundo stop. Ao redor, uma abissal crosta de cristais de sal produzidos pela evaporação de águas salinas subterrâneas. É o segundo maior salar da Terra. Só perde para o Uyuni, o salar boliviano. Aqui é o lugar perfeito para observar flamingos – quase o tempo inteiro com o bico dentro da água procurando comida – e as gaivotas andinas.

Subindo mais um pouco, a quase 3.000 metros de altitude, está Socaire – outro povoado atacameño. Já foi uma cidade importante por causa das enormes minas de oro. Hoje tem apenas 380 habitantes e uma igreja feita de barro e argila, tombada pelo patrimônio nacional. Esta conhecido na região por oferecer comida típica. No meio do caminho encontramos com o Zorro Culpeo, uma raposinha em extinção. Na volta do passeio, nosso almoço foi aqui: cazuela de vacuno. Trocando em miúdos: sopa de carne com legumes. Sopa? No deserto? Meu filho, às duas horas da tarde você come até os dedos. Inclusive o Raul – que é bem chato em relação à comida – a-d-o-r-o-u!

Bem, depois de quatro dias já não tenho mais adjetivos nem criatividade para descrever o despautério que é esse lugar. Mas a 4.000 metros de altitude e a 18 quilômetros de Socaire, o encontro com elas – as lagunas Miscanti e Meñiques. Até o Raul deixou a máquina de lado e se sentou para observar o que parecia mais um delírio da natureza. Simples assim: uma erupção vulcânica do Meñiques, há um milhão de anos, provocou o estancamento das águas criando essas lagunas de intenso azul e margens brancas. Toda a região, para ajudar, é cercada por um matinho dourado (conhecido como paja brava), vicunhas e patos endêmicos. A descrição fica por sua conta.

Fotos: Raul Mattar (menos a última em que ele aparece fotografando que pertence ao Matraca’s Image Bank).

SERVIÇO:

Contratamos todos os passeios na agência Lickan Antay.
A desgramada não tem site. Fica na c/ Caracoles, 419 – Tel.: (+56) 55 591799 e 55 591800.
Valor do tour: 27 mil pesos (US$ 54,00)- por pessoa. Inclui café da manhã e almoço.
Valor da entrada na Laguna Chaxa (Salar de Atacama): 2 mil pesos (US$ 4,00)
Valor da entrada nas Lagunas Altiplânicas: 2 mil pesos (US$ 4,00)

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Atacama: 3º dia | Tarde: Lagunas Cejar e Tebinquiche
Atacama: 4º dia | Lagunas Altiplânicas
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Atacama: 3º dia | Tarde: Lagunas Cejar e Tebinquiche

Toda e qualquer vaidade vão areia abaixo no terceiro dia no Deserto do Atacama. Não dá nem mais para pentear o cabelo. O chapéu toma conta. No rosto, camadas brancas de protetor solar. Nem o esmalte consegue esconder mais o encardido das unhas. Eu, que levo pouquíssima roupa na bagagem, tive que apelar para as lavanderias locais (depois entendi porque há tantas espalhadas por San Pedro de Atacama) para ter o que usar no resto da semana. Era a Cascuda em pessoa.

Depois do Tour Arqueológico na parte da manhã, nosso terceiro dia foi brindado com as Lagunas Cejar e Tebinquiche na parte da tarde. Quem diria, mas há lagoas (aos montes) no meio do deserto mais árido do mundo. A maioria é formada pela água de degelo das montanhas ou por lençóis subterrâneos. A Laguna Cejar é prima-irmã do Mar Morto em Israel – onde estive há 10 anos. De tão salgada, o corpo não afunda. As margens estão cristalizadas pelo sal e a água é verdinha, cercada por matinhos dourados e com o vulcão Licancabur ao fundo. (Aliás, ele sempre está emoldurando as paisagens aonde quer que você vá.)

Os mais atrevidos, despojados, intrépidos e corajosos arriscaram boiar na Laguna Cejar. Eu? Não, obrigada. Já tive essa experiência no Mar Morto. Ademais, uso lentes de contato. Qualquer gota daquela água salgada nos olhos seria um desastre para mim. Ah, tá bom. Arranjei uma desculpa. Foi preguiça mesmo. Como pude boiar em Israel, sei que é uma delícia. O efeito da gravidade provocado pelo excesso de sal causa um enorme relaxamento. Mas verifique se a agência contratada vai levar litros de água doce para você se enxaguar depois. O sal gruda no corpo e fica pinicando se não for retirado totalmente.

A parada na Laguna Cejar dura quase uma hora e meia. É recomendável não andar descalço nas margens. As crestas de sal são afiadas e podem cortar os pés. Avançamos mais um pouco e chegamos aos Ojos del Salar ou Ojos de Tebinquiche. Duas crateras enormes de água doce. Ninguém sabe ao certo como elas se formaram. Há os que arriscam que meteoros teriam caído ali há milhões de anos. (Adooro teoria conspiratória, sem pé nem cabeça). Quem não conseguiu retirar todo o sal do corpo com os galõezinhos de água levados pelos guias, tem uma nova oportunidade aqui.

Em seguida vamos à Laguna Tebinquiche, onde está previsto mais um por-do-sol acompanhado de snacks e pisco sour (bebida típica chilena que lembra nossa caipirinha) – oferecidos pelas agências. Como quase todos os lagos da região, o Tebinquiche depende do degelo das montanhas. O grande diferencial é que sua borda de sal é absurdamente grande e ao cair o sol um tom amarelado toma conta da paisagem. Com o Licancabur fazendo pose, ali atrás, claro.

Fotos: Raul Mattar (menos a penúltima em que ele aparece fotografando, que pertence ao Matraca’s Image Bank).

SERVIÇO:

Contratamos todos os passeios na agência Lickan Antay.
A desgramada não tem site. Fica na c/ Caracoles, 419 – Tel.: (+56) 55 591799 e 55 591800.
Valor do tour: 10 mil pesos (US$ 20,00). Inclui snacks, com refrigeremnate, suco e pisco sour.
Valor da entrada: 2 mil pesos (US$ 4,00)

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Atacama: 3º dia | Manhã: Tour Arqueológico

Se eu tivesse que dar uma sugestão diria para você fazer primeiro, assim que chegasse a San Pedro, o tour arqueológico. E só depois se embrenhasse pelos passeios-paisagem. História e arqueologia me fascinam e a Aldea Tulor e Pukará de Quitor – sítios arqueológicos – faziam parte das prioridades absolutas para mim. O detalhe é que não se deve esperar por cenários extraordinários – como os que vimos nos dias anteriores. Se você fizer primeiro este recorrido seguramente vai se impressionar mais do que se vier depois de um Salar de Tara, por exemplo.

Contratamos um motorista particular (indicado pela agência) para esse passeio. Queríamos fazer algo em, no máximo três horas, no período da manhã, porque à tarde seguiríamos para a Laguna Cejar. Antes de encontrar o tal motorista, começamos – por conta – pela igreja de San Pedro de Atacama, construída no século 18 em adobe com teto de madeira. Declarada patrimônio nacional, a igrejinha fica na praça da cidade, rodeada de bares, restaurantes e lojinhas. A poucos metros dali está o Museu Gustavo Le Paige com uma coleção interessante de cerâmica, tecidos, arpões e vestimentas da cultura regional. Estão expostos vestígios desde a Idade da Pedra Lascada (e não é força de expressão) até marcas da civilização Inca. É bem organizado, mas pequenininho. Não espere um Louvre Atacamenho.

Já no Toyota do motorista Tatá, um velhinho simpático e falante, fomos em seguida a Pukará de Quitor, um sítio arqueológico a apenas três quilômetros do centro de San Pedro. Quitor foi uma antiga fortaleza pré-Inca, construída no século 12 – hoje em ruínas. Foi erguida sobre um “morro” que faz parte da Cordilheira de Sal. A princípio, parece um amontoado de pedras. Mas ao subir (sedentários, preparem-se para botar os bofes para fora) o visitante vai desvendando a realidade dos antigos habitantes do lugar.

É uma edificação espantosa. São pedras grandes e pequenas entrelaçadas com uma massa de barro. Tinha caráter estratégico e defensivo. No século 16 foi invadida e parcialmente destruída pelos espanhóis. Aqui encontrei  um casal de ingleses que passeavam com um bebê de dois (DOIS!) meses e um menino de três anos. Na foto aí de cima você vê o pai carregando o menino nas costas. Já a mãe – carregando o bebê num canguru – foi aconselhada a esperar lá embaixo, na sombra.

Dali fomos para a Aldea Tulor, a 10 quilômetros de San Pedro de Atacama. Está no mesmo caminho que leva ao Valle de la Luna. É o vestígio habitacional mais antigo do Salar, uma aldeia tipicamente pré-colombiana. Acredita-se que a Aldea Tulor tenha quase 3 mil anos. O curioso são as construções de argila, em forma circular, antigas casas geminadas. Em algum momento esta aldeia foi sepultada pela areia. Hoje o que se vê ali são duas casinhas reproduzidas (não originais) e uma passarela com um pequeno mirante que permitem observar do alto as formações do lugar. Daqui se tem uma ótima visão do vulcão Licancabur. A descoberta arqueológica permitiu avanços nas pesquisas históricas da região.

Então, pois é… para a história e a arqueologia são informações e descobertas sensacionais. Para uma experiência turístico-sensorial deixa a desejar. Mas a culpa é minha, não do lugar. Eu que já conheci as pirâmides do Egito, as ruínas de Teothiucán no México, e a reconstituição de uma povoação Guanche em Tenerife, nas Ilhas Canárias fiquei assim… “já acabou?” Mas em nenhum momento desaconselharia a visita. Acho uma obrigação (se é que existem obrigações numa viagem) passar por aqui. Só contenha suas expectativas. Coisa que eu não fiz.

SERVIÇO:

Valor do Tour Arqueológico: 15 mil pesos (US$ 30,00) – para os dois. Foi o único tour que eu paguei diretamente para o motorista, indicado pela agência Linckan Antay. Geralmente as agências cobram este valor por pessoa e o tour dura 5 horas. O nosso foi feito em três e já tá bom demais. O celular do motorista Tata é (+56) 55 9302-1521.
Valor da entrada em Pukará de Quitor: 2 mil pesos (US$ 5,00)
Valor da entrada na Aldea Tulor: 2 mil pesos (US$ 5,00)

Ainda no 3º dia no Atacama: Laguna Cejar e Tebinquiche. Nosso próximo post!

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Atacama: 2º dia | Salar de Tara

A recomendação é: faça primeiro os passeios de altitudes mais baixas para seu corpo se acostumar. Mas o tour que percorre o Salar de Tara – a quase 4.400 metros – calhou de ser organizado no nosso segundo dia no Atacama. Poucas agências levam até lá. E é praticamente impossível fazer a rota sozinho. Nem pensamos duas vezes. Depois do arrebatamento no Valle de la Luna fizemos um jantar leve no apart-hotel e fomos dormir cedo para enfrentar no dia seguinte um possível soroche, também chamado de mal das alturas.

O sacolejo começa às 8h. É um passeio de dia inteiro. A viagem passa por uma das paisagens mais impressionantes do Altiplano. É o tour mais completo na minha opinião: tem salar, vulcão, flamingos, formações rochosas inexplicáveis. Mas é pouco conhecido ainda. Talvez porque seja muito longe, ou muito caro. Não importa: vá! O Salar de Tara pertence a Reserva Nacional dos Flamingos e está a 140 quilômetros de San Pedro, 50 deles derrapando num areião sem fim. Juan Carlos – nosso motorista e guia – é especializado na rota. Dado momento só se vê deserto, sem nenhuma referência, não há sinalização, nem estradinhas demarcadas.

Pode ser considerada uma região excêntrica, daquelas donas de si, que zombam do visitante. A majestade diante dos súditos, nós – a plebe pasmada e constrangida com tamanha força natural. São várias paradas para (tentar!) respirar, fotografar, admirar. Na nossa van, dois espanhóis e uma chilena. Um grupo entrosado e extrovertido. Ninguém foi pego pelo soroche. (E eu nem cheguei a tomar o famoso chá de coca).

Toda a reserva está cheia de estruturas vulcânicas, declives e formas modeladas pelo vento. Os Monges de Pacana são verdadeiros moais atacamenhos. Enormes rochas verticais de 30 metros de altura, solitárias no meio do nada. Durante o percurso aparecem as primeiras vicunhas, rápidas e desconfiadas. Essa espécie de camelídio andino está em extinção e sua caça, totalmente proibida. Difícil fotografar as danadinhas. Quando percebem qualquer aproximação, disparam pelo vale. Da nossa parte, não há afobação. O deserto – principalmente a uma altitude dessas – pede calma, passos lentos. Para mim, que ando rápido, falo rápido e gesticulo muito, foi exercício de paciência e introversão.

Quando a gente acha que já está bom, que já valeu à pena… encontra um paredão gigante – as Catedrais de Tara – colossais esculturas de pedra que se assemelham a um grande castelo. Uma experiência exótica, absoluta.

Próximo dali o salar, propriamente dito. Cheio de flamingos. Fizemos uma parada para o almoço, preparado pelo guia: arroz, frango, salada de tomate e abacate apimentado. Acompanhava vinho, suco e refrigerante. Era quase uma da tarde e eu estava morrrrta de fome. Degustei como se fosse meu melhor manjar chileno, no restaurante mais inusitado do planeta.

Fotos: Raul Mattar (menos a que ele aparece fotografando e a do prato de comida, que pertencem ao Matraca’s Image Bank. Nossa foto comendo foi tirada pelo Juan Carlos, o guia-motorista)

SERVIÇO:
Contratamos todos os passeios na agência Lickan Antay.
A desgramada não tem site. Fica na c/ Caracoles, 419 – Tel.: (+56) 55 591799 e 591800.
Valor do tour avulso: 35 mil pesos (US$ 70,00) – por pessoa. Se comprar com outros passeios há desconto.

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Atacama: 1º dia | Valle de la Luna e Valle de la Muerte

Mal sabia eu o que me esperava. Ao passar pela Cordilheira de Sal surgem impressionantes formas e brilhos minerais. De repente, uma enooorme duna, 20 minutos de subida, a 2400 metros de altitude. Xinguei o guia, a mãe do guia, o pai do guia e todo mundo que me fez comer areia e poeira. Mas na hora tive meu momento-roberto-shinyashiki, “você pode, você consegue, acredite em você…”. Quando me dei conta já estava lá em cima com aquela visão inconsequente provocada pelo Valle de la Muerte.

Foram cinco dias inteiros no Deserto do Atacama. O passeio de estreia é quase o mesmo para todo mundo: Valle da la Muerte e Valle de la Luna. Os dois vales estão bem próximos de San Pedro. O da Morte fica a apenas três quilômetros e o da Lua, a 17. Muita gente chega lá a pé ou de bicicleta. Fui numa vanzinha com ar condicionado, craro. Valle de la Muerte: o porquê deste nome ninguém sabe ao certo. Existem várias teorias. Uns dizem que por ser tão seco, nada nasce ali. Outros supõem que o arqueólogo Gustavo Le Paige – grande desbravador do Atacama há mais de 50 anos – teria encontrado restos mortais na região, levando Le Paige a acreditar que os antigos atacamenhos utilizavam o vale para morrer.

É um enorme silêncio, uma vastidão, rochas avermelhadas, dunas douradas. Muito, muito calor. Justamente por isso o tour começa mais pro fim da tarde, às 16h para dar tempo de pegar o por-do-sol ali do lado, no Valle de la Luna – outro acinte geológico. O vento e a ação de outros agentes atmosféricos esculpiram uma visão lunar, com esculturas no meio nada. Um ambiente perfeito para trekking, montaria (há passeios a cavalo), off-road e mountain bike, verbetes absolutamente inexistentes no meu dicionário MatracaHouaiss.

Licença pro meu lado cafona: para mim, o infinito deserto, o ilimitado horizonte, o indeterminado sentido, o sem fim do movimento natural do vento, o deleite de estar ali foram suficientes para me deixar sentada, abraçada no meu próprio sedentarismo, mergulhada na minha capacidade de superação – apenas observando o que todo mundo tentava (mas não conseguia) pegar com as mãos. Pronto, pode continuar.

Tive a sorte (alguns chamariam de azar) de pegar um dia parcialmente nublado, o que provocou um por-do-sol com nuances laranjas, vermelhas, rosadas e violetas no meu primeiro fim de tarde aqui. Foi uma visão deslumbrante. Não é exagero de viajante afetado. Role a página e depois a gente volta a conversar.

SERVIÇO:

Contratamos todos os passeios na agência Lickan Antay.
A desgramada não tem site. Fica na c/ Caracoles, 419 – Tel.: (+56) 55 591799 e 591800.
Valor do tour avulso: 5 mil pesos (US$ 10,00). Se comprar com outros passeios há desconto.
Valor da entrada: 2 mil pesos (US$ 4,00)

Fotos: Raul Mattar

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